Papa João Paulo II era atingido em atentado há 45 anos

Em 13 de maio de 1981, Mehmet Ali Ağca disparou contra o papa polonês em desfile na Praça de São Pedro

Papa João Paulo II no Yankee Stadium, em Nova York. Out. 1979 - Biblioteca do Congresso dos EUA

Naquela tarde de quarta-feira, o papa João Paulo II percorria a Praça de São Pedro em um jipe aberto, saudando cerca de 20 mil fiéis. O relógio marcava 17h17 quando quatro disparos de uma pistola semiautomatico Browning calibre 9mm atingiram o pontífice no abdômen, no braço direito e na mão esquerda. O pânico tomou conta da multidão enquanto o líder da Igreja Católica desfalecia nos braços de seus assessores, sendo levado às pressas para a Policlínica Gemelli.

O autor dos disparos foi identificado imediatamente como Mehmet Ali Ağca, um cidadão turco de 23 anos com passagens pelo grupo de extrema-direita Lobos Cinzentos. Capturado por fiéis e pela polícia vaticana poucos instantes após o crime, Ağca não agiu por impulso. Ele era um assassino profissional que já havia fugido de uma prisão na Turquia após matar um jornalista, carregando consigo um histórico de instabilidade e fanatismo.

As motivações por trás do crime permanecem, até hoje, objeto de intensos debates entre historiadores e especialistas em geopolítica da Guerra Fria. Durante os interrogatórios, o atirador apresentou versões contraditórias, ora afirmando ser o messias, ora sugerindo conspirações internacionais. Uma das teses mais difundidas aponta para a “conexão búlgara”, sugerindo que o serviço secreto da União Soviética teria orquestrado o plano para conter a influência do papa na Polônia.

A conexão com o Terceiro Segredo de Fátima

Para o mundo católico, a data do atentado carregava um simbolismo profundo, pois coincidia com a primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima em Portugal. João Paulo II sobreviveu a uma cirurgia de cinco horas e, durante sua recuperação, solicitou os envelopes que continham as profecias reveladas aos pastores portugueses em 1917. Ele passou a acreditar piamente que uma “mão materna” havia desviado a trajetória da bala que quase lhe tirou a vida.

O Terceiro Segredo de Fátima, mantido em sigilo pelo Vaticano por décadas, descrevia a visão de um “bispo vestido de branco” que caía morto sob o fogo de armas. Embora a visão sugerisse o falecimento do líder, o pontífice interpretou que sua sobrevivência era um sinal de que sua missão ainda não havia terminado. Em um gesto de devoção, a bala extraída de seu corpo foi posteriormente encastoada na coroa da imagem de Fátima.

O encontro na prisão e o exercício do perdão

Dois anos após ser baleado, João Paulo II protagonizou uma das imagens mais icônicas da diplomacia e da ética cristã moderna. Em dezembro de 1983, ele visitou a prisão de Rebibbia, em Roma, para conversar pessoalmente com Mehmet Ali Ağca. O encontro durou cerca de 20 minutos, em uma cela privativa, onde o papa ofereceu seu perdão formal ao homem que tentou assassiná-lo, tratando-o como um irmão.

O registro histórico desse encontro mostra um diálogo em voz baixa, cujo conteúdo exato nunca foi totalmente revelado pelo Vaticano. O pontífice afirmou publicamente que seu agressor agiu de forma confusa, mas que o perdão era uma necessidade espiritual. Ağca, por sua vez, demonstrou espanto com o fato de o papa ter sobrevivido, questionando repetidamente sobre o poder da profecia de Fátima durante a conversa.

Repercussões políticas e o legado de João Paulo II

O atentado forçou a Santa Sé a revisar drasticamente seus protocolos de segurança, resultando na criação do famoso “Papamóvel” blindado. Além do impacto logístico, o evento fortaleceu a imagem pública de João Paulo II como um líder resiliente e místico. Sua postura diante do crime ajudou a consolidar sua autoridade moral em um período de transição democrática no Leste Europeu e de repressão em outras partes do globo.

Diferente da lógica de expansão territorial vista na história colonial brasileira, o Vaticano utilizou o incidente para expandir sua influência diplomática e espiritual. O papa continuou a viajar pelo mundo, inclusive visitando o Brasil em diversas ocasiões, sempre carregando a marca daquele 13 de maio. A sobrevivência do líder polonês é lida por muitos como um fator decisivo para a manutenção da estabilidade religiosa no final do século passado.

Mehmet Ali Ağca cumpriu 19 anos de prisão na Itália antes de ser perdoado pelo presidente italiano, a pedido do próprio pontífice, e extraditado para a Turquia em 2000. Mesmo após sua libertação final em 2010, o ex-detento continuou a dar declarações enigmáticas sobre o caso. Contudo, para a historiografia oficial, o episódio encerrou-se como uma demonstração da vulnerabilidade humana frente ao extremismo político da época.

Aos 45 anos do ocorrido, a trajetória de João Paulo II permanece ligada àquelas cenas na Praça de São Pedro. O evento transformou a percepção pública sobre a segurança de chefes de Estado e reforçou o papel do papado como ator central na política internacional. O legado desse período continua a ser estudado como um ponto de inflexão onde a fé e a geopolítica se cruzaram de forma violenta e, posteriormente, conciliadora.

Seguir:
HiperHistória revive os fatos mais importantes da história, um verdadeiro museu virtual das grandes curiosidades do presente e do passado.