Leonardo da Vinci, embora universalmente reconhecido como o arquétipo do “Homem da Renascença” devido aos seus interesses multidisciplinares, deixou um número surpreendentemente pequeno de pinturas completas. No entanto, a escassez da sua produção é inversamente proporcional ao seu impacto: cada quadro é uma revolução técnica e artística. Selecionar as cinco “grandes” envolve inevitavelmente as obras que definiram não só a sua carreira, mas a própria história da arte ocidental: Mona Lisa, A Última Ceia, A Virgem dos Rochedos, Dama com Arminho e A Anunciação.

A Mona Lisa (ou La Gioconda), exposta no Museu do Louvre, é sem dúvida a pintura mais famosa do mundo. Retratando Lisa Gherardini, a obra é o exemplo supremo da técnica de sfumato de Leonardo — a suave gradação entre tons claros e escuros que elimina linhas de contorno rígidas, criando uma aparência “esfumaçada”. O seu sorriso enigmático e o olhar que parece seguir o observador continuam a fascinar multidões, transformando um simples retrato de uma mulher da nobreza florentina num ícone cultural inigualável. Veja a imagem completa aqui.

A Última Ceia, pintada no refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, é uma obra-prima de dramatismo e perspectiva. Ao contrário das representações estáticas tradicionais, Leonardo escolheu o exato momento de tensão em que Cristo anuncia que um dos apóstolos o trairá. A composição agrupa os discípulos em trios, cada um reagindo com um espectro de emoções humanas, do choque à raiva. Infelizmente, a escolha experimental de Leonardo de pintar com têmpera sobre parede seca, em vez da técnica tradicional de fresco, levou à rápida deterioração da obra, que sobrevive hoje como um “fantasma” restaurado da sua glória original. Veja a imagem na íntegra aqui.

A Virgem dos Rochedos demonstra o domínio de Leonardo sobre a natureza e a luz. Existem duas versões desta obra (uma no Louvre, outra na National Gallery de Londres), ambas caracterizadas por uma composição piramidal perfeita que une a Virgem Maria, o Menino Jesus, São João Batista criança e um anjo. O cenário é uma gruta rochosa e sombria, repleta de detalhes geológicos e botânicos precisos, onde as figuras emergem da escuridão por uma iluminação suave e misteriosa, criando uma atmosfera de santidade e intimidade. Veja a imagem na íntegra aqui.

Dama com Arminho é um dos retratos mais dinâmicos do Renascimento, retratando Cecilia Gallerani, amante do Duque de Milão, Ludovico Sforza. A pintura inova ao apresentar a modelo com o corpo voltado para um lado e o rosto para outro, como se algo tivesse acabado de captar a sua atenção, conferindo movimento e vida à figura. O arminho que ela segura não é apenas um animal de estimação, mas um símbolo complexo de pureza e uma referência heráldica ao próprio Duque, demonstrando a habilidade de Leonardo em inserir camadas de significado nas suas obras. Veja a imagem na íntegra aqui.

A Anunciação, uma das suas primeiras grandes obras, revela um jovem Leonardo ainda a sair da sombra do seu mestre, Verrocchio, mas já a demonstrar a sua genialidade. A pintura retrata o Arcanjo Gabriel diante da Virgem Maria num jardim florentino. O que distingue esta obra é o tratamento científico das asas do anjo — baseadas em estudos de pássaros reais — e a paisagem atmosférica ao fundo, que já antecipa as suas futuras obsessões com a profundidade e a luz, embora a perspectiva da mesa da Virgem ainda mostre algumas inconsistências que ele corrigiria em trabalhos posteriores. Veja imagem na íntegra aqui.
Estas cinco obras encapsulam a essência da arte de Da Vinci: a fusão entre a observação científica rigorosa e a sensibilidade poética. Ele não via a pintura apenas como uma arte decorativa, mas como uma ciência de ver e compreender o mundo, utilizando o pincel para explorar a anatomia, a botânica, a geologia e, acima de tudo, a psicologia humana. O seu legado reside na capacidade de tornar o divino humano e o humano eterno, mediante uma busca incessante pela perfeição que, muitas vezes, o impedia de terminar os seus próprios trabalhos.
