A romã, fruto da Punica granatum, é nativa da região que se estende do Irã até o norte da Índia, e sua presença no Oriente Médio é anterior à história escrita. Desde os tempos de Cristo, e séculos antes, a romã era reverenciada não apenas como alimento, mas como um símbolo potente de fertilidade, abundância e vida eterna. Sua casca resistente permitia que fosse transportada por longas distâncias em caravanas pelo deserto sem estragar, servindo como uma fonte vital de hidratação para viajantes e comerciantes que cruzavam a Rota da Seda.
No contexto religioso e cultural da Antiguidade, a romã ocupava um lugar de destaque. Na Bíblia e na Torá, ela é mencionada diversas vezes; o Rei Salomão possuía um pomar de romãs, e a fruta adornava as vestes dos sumos sacerdotes no Templo de Jerusalém. Na época de Cristo, a romã já era um motivo comum na arte e na arquitetura, simbolizando a unidade do povo (muitas sementes em um só fruto) e, mais tarde, na iconografia cristã, representando a ressurreição e a vida eterna. Romanos e gregos também a associavam a deusas como Perséfone e Afrodite, ligando o suco vermelho ao sangue e à renovação da vida.
Mais antiga que os limões e tomates
Além do simbolismo, a utilidade prática da romã no mundo antigo era vasta. Antes da chegada dos limões e tomates ao Oriente Médio, o suco de romã e o verjuice (suco de uvas verdes) eram as principais fontes de acidez na culinária. Medicinalmente, médicos da antiguidade utilizavam a casca rica em taninos para tratar problemas digestivos e inflamações, enquanto a polpa era prescrita para febres. A casca também era essencial na indústria de curtumes para tingir couros e tapetes com tons amarelados e negros, uma prática que perdura em algumas regiões até hoje.
Na culinária persa (atual Irã), a romã é considerada a “joia” da cozinha e seu uso evoluiu de uma simples fruta de mesa para um ingrediente estrutural de pratos complexos. A forma mais comum de conservação desenvolvida historicamente foi o rob-e anar, ou melaço de romã. Esse xarope espesso e escuro, obtido pela redução do suco da fruta, concentra um sabor agridoce intenso que define o perfil de sabor de muitos guisados clássicos, permitindo que a fruta seja consumida durante o ano todo, mesmo fora da curta estação de colheita no outono.
O exemplo mais emblemático do uso desa fruta na culinária iraniana moderna é o Fesenjan (ou Khoresh-e Fesenjan). Este é um guisado rico e sofisticado, tradicionalmente servido em casamentos e no Yalda (o solstício de inverno). O prato é feito com frango ou pato cozido lentamente em um molho espesso de nozes moídas e melaço de romã. A alquimia do prato reside no equilíbrio: a gordura das nozes é cortada pela acidez adstringente da romã, resultando em um molho de cor marrom escuro, quase negro, com um sabor profundo e terroso inigualável em outras cozinhas mundiais.
Romã na culinária
Além dos guisados, os iranianos utilizam a romã em diversas outras formas no dia a dia. As sementes frescas, chamadas de arilos, são usadas como guarnição crocante e ácida sobre o arroz pilaf, saladas e pratos de berinjela, proporcionando uma explosão de frescor visual e gustativo. Existe também o Ash-e Anar, uma sopa substancial feita com almôndegas, ervas, arroz e suco de romã. Nas ruas de Teerã, é comum encontrar o Lavashak, um “couro de frutas” seco e azedo feito de pasta de romã, consumido como um lanche popular.
Hoje, a romã permanece como um pilar da identidade gastronômica do Oriente Médio, especialmente no Irã. Enquanto no Ocidente ela é muitas vezes vista como uma “superfruta” moderna para sucos e saladas, no Oriente Médio ela carrega um peso histórico contínuo. De símbolo sagrado nos tempos bíblicos a ingrediente indispensável nos lares iranianos contemporâneos, a romã provou ser uma fruta atemporal, cuja versatilidade permitiu que ela atravessasse milênios sem perder sua majestade ou relevância.
