O Concílio Vaticano I foi convocado pelo Papa Pio IX em 1869 com o objetivo de enfrentar os desafios do mundo moderno, como o racionalismo, o materialismo e o liberalismo, que minavam a autoridade da Igreja. Um dos temas centrais tratados pelos padres conciliares foi a definição do dogma da infalibilidade papal.
Segundo esse dogma, o Papa, quando fala ex cathedra — isto é, na qualidade de pastor supremo da Igreja, e ao definir uma doutrina de fé ou moral —, é preservado do erro por uma assistência especial do Espírito Santo. A proclamação oficial da infalibilidade papal aconteceu em 18 de julho de 1870, por meio da constituição dogmática Pastor Aeternus. No entanto, embora essa definição tenha sido alcançada, os trabalhos do concílio ainda estavam em andamento e outros temas doutrinais e pastorais permaneciam pendentes, aguardando discussão e deliberação pelos bispos reunidos em Roma.
Interrupção do concílio
A continuação do concílio foi abruptamente interrompida por um evento político decisivo: a tomada de Roma pelas tropas do Reino da Itália em 20 de setembro de 1870. Esse acontecimento marcou o fim dos Estados Pontifícios e, com isso, do poder temporal do Papa, que desde o século VIII governava vastos territórios na península Itálica.
A unificação italiana, promovida pelo movimento nacionalista do Risorgimento, considerava essencial a incorporação de Roma como capital do novo Estado. A entrada das tropas italianas na cidade causou grande comoção e levou o Papa Pio IX a recusar qualquer colaboração com o novo regime. Ele se declarou “prisioneiro no Vaticano”, uma atitude que gerou um impasse diplomático duradouro.
Com a cidade ocupada e a segurança dos bispos ameaçada, tornou-se impossível continuar os trabalhos conciliares. A crise política, portanto, teve um impacto direto na vida eclesial, interrompendo de forma inesperada o curso de um concílio ecumênico.
Diante da situação crítica, o Papa Pio IX publicou, em 20 de outubro de 1870, a bula Postquam Dei munere, que suspendeu oficialmente os trabalhos do Concílio Vaticano I. Importante notar que a bula não declarou o encerramento do concílio, mas apenas sua suspensão indefinida. Ou seja, o Vaticano I não foi concluído canonicamente, mas interrompido por circunstâncias externas e extraordinárias.
Esse detalhe jurídico e histórico é significativo, pois mostra que o concílio, embora paralisado, permaneceu aberto na estrutura formal da Igreja. Muitos estudiosos interpretam essa suspensão como um sinal de que os objetivos completos do concílio não foram alcançados, e que temas importantes da eclesiologia e da missão da Igreja no mundo contemporâneo ficaram sem resposta. A interrupção do concílio mostra como os eventos políticos — especialmente a perda do poder temporal do Papa — influenciaram profundamente a vida interna da Igreja e o ritmo de sua autorreflexão teológica.
A continuação do Vaticano I
Foi somente em 1962, com a convocação do Concílio Vaticano II pelo Papa João XXIII, que a Igreja retomou, em certa medida, as reflexões interrompidas pelo Vaticano I. Embora juridicamente se tratasse de um novo concílio, muitos teólogos e historiadores veem o Vaticano II como uma espécie de continuação espiritual e doutrinal do anterior.
Se o Vaticano I se concentrou na autoridade papal e na definição da infalibilidade ex cathedra, o Vaticano II voltou-se à natureza da Igreja como Povo de Deus, ao papel do episcopado, à liturgia, ao diálogo ecumênico e à presença da Igreja no mundo moderno. O fato de o Vaticano I não ter sido formalmente encerrado até hoje permanece como um dado curioso e revelador: o único concílio ecumênico que não terminou por decisão da Igreja, mas por um acontecimento externo. Assim, o Vaticano I, suspenso mas não encerrado, permanece como um concílio inacabado na história da Igreja.
