Como Tiradentes foi feito herói nacional?

Durante o período do Império, ao longo de quase 70 anos, a figura de Tiradentes não foi vista de forma grandiosa

HiperHistória
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Resposta de Tiradentes à comutação da pena de morte dos Inconfidentes, de Leopoldino Faria - Foto: Domínio Público

Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, nem sempre ocupou o posto de herói nacional que possui hoje. Enforcado e esquartejado em praça pública no ano de 1792, no Rio de Janeiro, sua execução foi um espetáculo lúgubre planejado pela rainha portuguesa D. Maria I. O objetivo da Coroa era transformar seus restos mortais, espalhados pelas estradas de Minas Gerais, em um aviso macabro contra qualquer novo movimento separatista na Colônia, punindo duramente sua participação na malsucedida Inconfidência Mineira.

Durante o período do Império, ao longo de quase 70 anos, a figura de Tiradentes não foi vista de forma grandiosa. Os senadores vitalícios faziam raras e superficiais menções ao inconfidente, e a Monarquia o tratava como apenas mais um personagem rebelde do passado. Inclusive, para tentar neutralizar qualquer imagem heróica em formação, o famoso historiador Joaquim Norberto de Souza Silva, em seu livro “História da Conjuração Mineira” (1873), chegou a descrever Tiradentes como um indivíduo repugnante e descontrolado. Foi apenas com o advento da República que o seu significado mudou radicalmente.

O golpe da Proclamação da República

O golpe de 15 de novembro de 1889, que derrubou a Monarquia, foi executado por um número reduzido de militares e políticos republicanos, sem nenhuma participação ou engajamento do povo. Diante disso, os novos líderes temiam que a população rejeitasse a mudança abrupta de regime e se rebelasse na tentativa de devolver o poder à família de D. Pedro II. Para evitar o caos social e cimentar a nova ordem, eles precisavam urgentemente de uma figura carismática que gerasse apoio popular e legitimidade.

A necessidade dessa figura mitológica é profundamente analisada pelo historiador José Murilo de Carvalho, autor do clássico livro “A Formação das Almas – o imaginário da República no Brasil”. Ele explica que a República carecia de um herói republicano que ajudasse na construção simbólica da nação. Segundo o autor, heróis são instrumentos altamente eficazes para atingir a mente e o coração dos cidadãos, servindo como pontos de identificação coletiva e como antídotos contra possíveis conflitos civis que ameaçassem o regime.

À procura de um herói

A princípio, os republicanos procuraram esse grande herói entre os próprios protagonistas do golpe de 1889, mas nenhum deles possuía apelo junto à massa. O marechal Deodoro da Fonseca, líder militar do movimento, foi rapidamente descartado para esse papel, pois era de conhecimento público que ele havia sido um monarquista convicto até a véspera do golpe. Além disso, a sua figura idosa e ostentando longas barbas brancas remetia incômoda e diretamente ao próprio imperador deposto, D. Pedro II.

Foi então que, diante da falta de “densidade histórica” do 15 de novembro, os líderes do país decidiram resgatar a figura daquele subversivo enforcado quase um século antes. A escolha de Tiradentes ocorreu fundamentalmente através de três pilares justificáveis:

  • Alinhamento ideológico: Tiradentes foi efetivamente um republicano, já que a Inconfidência Mineira visava separar Minas Gerais de Portugal para fundar uma república livre dos pesados impostos portugueses;
  • Peso geopolítico: Minas Gerais era, no início da Primeira República, um estado central e de imensa força política e geográfica, sendo estratégico exaltar um personagem de suas terras;
  • Estética religiosa: A história do inconfidente ganhava fortes contornos messiânicos, lembrando a trajetória de Jesus Cristo, por ter lutado pela liberdade, sido traído por um amigo, poupado seus companheiros de rebelião e aceitado a morte no patíbulo.

Ao promoverem o resgate e a exaltação desse passado colonial, a mensagem que os republicanos quiseram passar à população brasileira era a de que eles não eram golpistas, mas sim os executores do nobre e antigo sonho do mártir mineiro. Para reforçar essa ideia visualmente, foram encomendadas pinturas nas primeiras décadas da República. Artistas consagrados como Décio Villares, Pedro Américo e Aurélio de Figueiredo criaram obras clássicas em que o rosto de Tiradentes (cujas feições reais não estavam em nenhum documento da época) foi idealizado com os cabelos longos e a barba mansa, característicos da imagem ocidental de Cristo.

A construção da imagem de Tiradentes como herói

Conforme argumenta José Murilo de Carvalho, todo e qualquer herói nacional é, em maior ou menor grau, construído e lapidado. Limpando a figura histórica de eventuais traços negativos ou contraditórios, a memória de Joaquim José foi meticulosamente costurada para ser um modelo inspirador num país com pouca oferta de heróis populares. O inconfidente foi moldado sob medida para agradar a nação tanto pelo viés cívico do patriota irredutível quanto pelo viés passional do sacrifício alheio.

Esse esforço sistemático de propaganda cívica deu tão certo que, com o passar dos anos e das transformações políticas, o mito republicano se consolidou e jamais foi desfeito. No transcorrer do século XX, ele continuou recebendo láureas do Estado, tornando-se o patrono oficial das polícias civis e militares do Brasil em 1946. Em 1965, foi elevado à condição de patrono cívico da nação e consagrou-se, posteriormente, como o primeiro brasileiro a ser formalmente homenageado no Livro dos Heróis da Pátria.

Portanto, a transformação de Tiradentes em herói máximo nacional está longe de ser um reconhecimento espontâneo derivado puramente da ação do tempo. Trata-se, na realidade, de um projeto político muito bem planejado por uma república nascente que precisava de suporte popular imediato. Ao reciclar o condenado de D. Maria I e transformá-lo num mártir imaculado, o Estado brasileiro forjou uma identidade coletiva e garantiu, de forma magistral, a sua própria sobrevivência histórica e institucional.

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