O sucesso de Tieta: temas e audiência

Baseada na obra "Tieta do Agreste", de Jorge Amado, a adaptação capturou magistralmente a essência do humor nordestino.

HiperHistória
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Foto: Google Gemini/HiperHistória

“Tieta” é um dos capítulos mais fascinantes, divertidos e brilhantes da história da televisão brasileira. Exibida entre 1989 e 1990, a trama se consagrou como um verdadeiro fenômeno cultural. Baseada na obra “Tieta do Agreste“, de Jorge Amado, a adaptação liderada por Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn capturou magistralmente a essência do realismo fantástico e do humor nordestino. A narrativa, que acompanha o retorno triunfal e vingativo da protagonista à fictícia e conservadora Santana do Agreste, tornou-se um marco que transcendeu a tela e foi parar nas rodas de conversa de todo o país.

O sucesso de audiência foi estratosférico e praticamente inigualável. A novela alcançou uma média geral impressionante, beirando os 65 pontos no Ibope, com picos que ultrapassaram a marca dos 80 pontos em seus momentos decisivos. Esses números significavam que o Brasil literalmente parava no horário nobre; ruas ficavam vazias e o país inteiro se reunia em frente à TV para acompanhar as intrigas, os amores e as excentricidades dos moradores de Santana do Agreste, consolidando a obra como uma das maiores audiências da história da TV Globo.

As críticas sociais de Tieta

Grande parte desse magnetismo deve-se à genialidade de Aguinaldo Silva em tecer críticas sociais profundas sob o disfarce da comédia rasgada. Em um Brasil que havia recém-saído de uma ditadura militar e respirava os ares de sua nova Constituição, o autor teve a audácia de colocar um espelho diante do público. Ele utilizou o microcosmo daquela pequena cidade baiana para expor o moralismo de fachada, a corrupção política local e a hipocrisia das elites que ditavam as regras de conduta, mas que, nos bastidores, cometiam os mesmos (ou piores) “pecados” que condenavam.

A trama foi corajosa ao colocar o dedo na ferida e abordar temas extremamente polêmicos e pesados, sempre equilibrados pelo humor satírico. A novela discutiu abertamente o incesto, através do intenso romance entre Tieta e seu jovem sobrinho seminarista, Ricardo; escancarou a pedofilia e a exploração de menores por meio do Coronel Artur da Tapitanga e suas “rolinhas”; e ainda foi pioneira ao levantar bandeiras ambientais, debatendo os impactos destrutivos da instalação de uma indústria química altamente poluente (a Brastânio) em uma região litorânea paradisíaca.

No centro desse verdadeiro furacão criativo estava a escolha de Betty Faria para o papel-título. Curiosamente, a atriz não foi apenas convidada para a personagem; ela foi a grande idealizadora do projeto na televisão. Betty havia comprado os direitos da obra de Jorge Amado com recursos próprios e batalhou arduamente para que a Globo produzisse a adaptação, batendo de frente com executivos que inicialmente pensavam em outras atrizes para o papel. A teimosia e a paixão de Betty garantiram que ela protagonizasse o papel de sua vida.

Essa insistência provou-se o maior acerto da novela. Betty Faria não apenas interpretou Tieta; ela era Tieta. Ela trouxe para a tela uma mistura perfeita de sensualidade madura, carisma inesgotável, força matriarcal e humor. Com seu jeito despachado e um figurino que lançou tendências instantâneas pelo Brasil, a atriz encarnou a essência da mulher livre, dona de seu próprio corpo e dinheiro. Ela representou a quebra das amarras do machismo, mostrando uma heroína que construiu seu império sem depender de homens e voltou para colocar os falsos moralistas em seus devidos lugares.

O antagonismo de Perpétua

Contudo, a luz radiante de Tieta não brilharia com tanta intensidade se não houvesse o contraponto genial e sombrio de sua irmã mais velha, Perpétua, imortalizada pela atuação histórica de Joana Fomm. A atriz construiu uma das vilãs mais antológicas da teledramaturgia brasileira, tornando-se a personificação exata da falsa moral e dos “bons costumes”. Vestida da cabeça aos pés em um luto perpétuo, a personagem reprimia ferozmente seus próprios desejos sexuais enquanto fiscalizava de forma implacável e amarga a vida e a intimidade alheia.

O sucesso de Joana Fomm como Perpétua foi tão avassalador que a personagem muitas vezes roubava a cena, gerando gargalhadas com suas vilanias e com o inesquecível mistério da famosa caixa branca que ela guardava a sete chaves no armário (que, como os espectadores viriam a descobrir, guardava o órgão genital embalsamado de seu falecido marido). A química explosiva de amor e ódio entre Betty Faria e Joana Fomm foi o grande motor que sustentou a novela, provando que “Tieta” é, até hoje, uma obra-prima atemporal e um retrato fascinante da alma brasileira.

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