O rei Jorge V do Reino Unido faleceu em 20 de janeiro de 1936, na Sandringham House. A causa oficial divulgada à época foi atribuída a complicações respiratórias crônicas. O último boletim médico, emitido às 21h25 daquele dia, informou ao público que a vida do monarca caminhava pacificamente para o fim. Essa declaração estabeleceu a versão oficial de uma morte natural, decorrente do agravamento do estado de saúde do rei.
A cobertura da imprensa britânica e internacional nos dias seguintes seguiu a narrativa do boletim médico. Os jornais noticiaram o óbito com formalidade, destacando o histórico de saúde frágil do rei, que já sofria de problemas pulmonares graves associados ao tabagismo. Não houve questionamentos ou insinuações sobre a natureza da morte nas publicações da época, e a versão de um falecimento ditado pela evolução de suas doenças foi amplamente aceita pelo público.
Durante as cinco décadas seguintes, a historiografia e as biografias oficiais mantiveram essa mesma linha narrativa. Autores como John Gore e Harold Nicolson abordaram o fim da vida do monarca focando em seu legado e no declínio gradual de sua condição física. A descrição médica do óbito permaneceu como um dado secundário e incontestado, sem indícios de que os momentos finais de Jorge V tivessem ocorrido de maneira diferente da relatada pela coroa em 1936.
Os detalhes sobre a morte de Jorge V
Essa compreensão histórica foi substancialmente alterada no ano de 1986. O biógrafo Francis Watson publicou informações inéditas baseadas nos diários privados de Lorde Dawson of Penn, o médico pessoal do rei. Os documentos, que haviam permanecido arquivados e longe do conhecimento público por cinquenta anos, revelaram que o falecimento não ocorreu de forma exclusivamente natural, indicando que Dawson teve um papel direto e ativo na aceleração do óbito.
Nos registros de seu diário, Lorde Dawson descreveu a administração de uma injeção contendo doses letais de morfina e cocaína na veia jugular do rei. O procedimento ocorreu horas antes do anúncio oficial da morte, quando o monarca já se encontrava em estado de coma. Segundo as anotações do médico, a intervenção teve dois objetivos declarados: encurtar o sofrimento do paciente em seus momentos finais e controlar o momento exato do anúncio público.
A justificativa de Dawson sobre o horário do anúncio baseou-se na preferência pela publicação em um veículo considerado, por ele, de maior prestígio e adequação. O médico registrou que, ao acelerar a morte, evitaria que a notícia fosse dada inicialmente de forma fragmentada pelos jornais vespertinos. A intenção era assegurar que o The Times, jornal matutino de circulação nacional, tivesse o privilégio do anúncio oficial na manhã de 21 de janeiro.
Discussões sobre a ética
A divulgação do conteúdo dos diários gerou novas discussões sobre a ética médica praticada no período. Historiadores e profissionais da saúde passaram a analisar a decisão de Dawson, que registrou ter consultado a Rainha Mary e o Príncipe de Gales sobre a recomendação de não prolongar a vida do rei inutilmente. No entanto, os registros não especificam se a família real tinha conhecimento explícito ou se autorizou previamente a injeção letal que foi administrada.
Atualmente, o fim do reinado de Jorge V é documentado pela historiografia considerando os fatos revelados em 1986. O episódio deixou de ser classificado estritamente como um falecimento por causas naturais para ser reconhecido como um caso de eutanásia ativa executada pelo corpo médico. O caso ilustra a disparidade entre as informações oficiais divulgadas pelos canais da monarquia na década de 1930 e os procedimentos reais realizados nos bastidores.