No próximo ano, em 2027, o mundo marcará os 30 anos de uma das noites mais sombrias e marcantes da história contemporânea: a trágica morte de Diana, a Princesa de Gales. O choque global que paralisou multidões em 1997 ainda reverbera na cultura pop e na realeza britânica. A narrativa daquela madrugada parisiense, frequentemente envolta em teorias, possui uma sequência de fatos exaustivamente documentados que revelam uma tempestade perfeita de perseguição midiática, negligência ao volante e fatalidade.
A crônica da tragédia começou no dia 30 de agosto de 1997. Diana e seu então parceiro, o herdeiro bilionário Dodi Fayed, chegaram a Paris após passarem nove dias navegando pela Riviera Francesa a bordo de um iate da família Fayed. A viagem, que deveria ser um momento de descanso e transição antes de a princesa reencontrar seus filhos em Londres, tornou-se o epicentro de um frenesi midiático sem precedentes, com dezenas de fotógrafos rastreando e documentando cada movimento do casal.
Naquela noite, buscando refúgio do assédio impiedoso dos paparazzi, o casal dirigiu-se ao prestigioso Hotel Ritz, de propriedade do pai de Dodi, Mohamed Al-Fayed. A intenção inicial era jantar no restaurante do hotel, mas a presença sufocante de clientes curiosos e fotógrafos no salão principal os forçou a recuar. Eles acabaram jantando na privacidade da Suíte Imperial, tentando encontrar alguns momentos de paz antes de se deslocarem para o apartamento de Dodi, nas proximidades da Champs-Élysées.
O plano para despistar os paparazzi
Com a entrada principal do Ritz sitiada por dezenas de paparazzi em motocicletas, a equipe de segurança precisou improvisar. Henri Paul, o vice-chefe de segurança do hotel, foi chamado de volta ao trabalho naquela noite, mesmo estando fora de seu turno regular, para orquestrar uma manobra de despiste. O plano consistia em enviar um veículo chamariz para a entrada principal, atraindo a massa de fotógrafos, enquanto o casal escaparia discretamente pelos fundos do edifício.
Passava da meia-noite, já nas primeiras horas do dia 31 de agosto, quando a fuga foi posta em prática. Às 00h20, pela saída traseira na rue Cambon, Diana e Dodi entraram furtivamente em um Mercedes-Benz S280 preto. Eles ocuparam o banco traseiro, e nenhum dos dois utilizou os cintos de segurança. Na frente, Henri Paul assumiu o volante, enquanto Trevor Rees-Jones, o guarda-costas da família Fayed, sentou-se no banco do carona, sendo o único que acabaria sobrevivendo ao trajeto.
A estratégia de distração, no entanto, falhou rapidamente. Poucos minutos após o Mercedes deixar a rua lateral, alguns fotógrafos mais atentos perceberam o engano e iniciaram uma perseguição agressiva pelas ruas da margem direita do rio Sena. O que se seguiu foi uma corrida caótica contra os flashes. Em uma tentativa desesperada de despistar as motocicletas que os flanqueavam, o motorista acelerou o veículo muito além dos limites de velocidade urbana, transformando as vias de Paris em uma pista altamente perigosa.
O elemento mais crítico e trágico dessa perseguição repousava no estado clínico e mental do homem ao volante. Investigações francesas e britânicas posteriores confirmaram sem margem para dúvidas que Henri Paul estava sob forte influência de substâncias. Seus exames toxicológicos revelaram um nível de álcool no sangue quase três vezes superior ao limite legal permitido na França, além da presença de medicamentos prescritos, como antidepressivos e calmantes, um coquetel químico que comprometeu drasticamente seus reflexos e seu julgamento.
A fuga e a entrada no túnel
A fuga atingiu seu clímax às 00h23, quando o Mercedes desceu em direção à passagem subterrânea da Ponte de l’Alma. Testemunhas e perícias de trânsito estimaram que o carro viajava a uma velocidade aproximada de 105 km/h em uma zona cujo limite legal era de apenas 50 km/h. O declive abrupto e a ligeira curva na entrada do túnel exigiam uma precisão de manobra que as condições inebriadas de Henri Paul e a velocidade extrema impossibilitavam, selando o destino dos ocupantes do veículo.
Ao entrar no túnel, o motorista perdeu o controle definitivo da direção. O Mercedes colidiu primeiro, de raspão, contra a lateral de um Fiat Uno branco que trafegava na mesma pista em velocidade reduzida — um veículo cujos ocupantes nunca foram encontrados de forma definitiva pelas autoridades. O atrito desestabilizou completamente o carro de luxo, que guinou bruscamente para a esquerda e chocou-se de frente, com violência catastrófica, contra o 13º pilar de sustentação central do túnel, rodopiando no ar antes de parar voltado para a direção contrária.
A brutalidade do impacto frontal causou danos físicos devastadores e imediatos. Dodi Fayed e Henri Paul sofreram traumas massivos na coluna e na cabeça, sendo declarados mortos ainda no local do acidente. Trevor Rees-Jones sobreviveu, protegido em parte pelo acionamento do airbag e pelo cinto de segurança (que ele teria colocado momentos antes), embora tenha sofrido graves fraturas faciais. A Princesa Diana foi encontrada caída no assoalho traseiro do carro, viva e semiconsciente nos primeiros minutos, murmurando palavras de confusão enquanto estava presa às pesadas ferragens.
A morte de Diana
O resgate de Diana foi complexo, exigindo que o teto do carro fosse cortado. Após ser extricada e sofrer uma parada cardíaca ainda na ambulância, ela necessitou de longas manobras de reanimação, o que tornou o trajeto até o Hospital Pitié-Salpêtrière extremamente lento para evitar novos choques no corpo ferido. A causa mortis revelada pela junta médica foi um choque hemorrágico irreversível provocado pela força brutal da desaceleração: o impacto empurrou o coração da princesa para o lado direito do peito, resultando na ruptura da veia pulmonar esquerda e em uma hemorragia interna maciça. Apesar dos esforços de uma cirurgia de emergência de peito aberto, ela foi declarada morta às 04h00 da manhã.
Quase três décadas após aquela noite, a tragédia no túnel de l’Alma continua a ser um doloroso estudo de caso sobre os limites da invasão de privacidade e os perigos da cultura da celebridade. A morte de Diana não apenas alterou de forma permanente a dinâmica da monarquia britânica com o escrutínio público, mas também forçou a imprensa global a reavaliar suas fronteiras éticas em relação aos paparazzi. Ao nos aproximarmos da marca de 30 anos sem a “Princesa do Povo”, sua narrativa permanece como um alerta sombrio de como uma fuga desesperada em busca de privacidade e normalidade terminou na mais pública das tragédias.
