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Como surgiu o islamismo?

Como surgiu o islamismo?
Foto: ekrem por Pixabay

O surgimento do islamismo está intrinsecamente ligado ao contexto geográfico e cultural da Península Arábica no início do século VII. Nesta época, a região era habitada predominantemente por tribos nômades beduínas e algumas comunidades sedentárias, vivendo em uma sociedade fragmentada e politeísta. Meca, uma das cidades mais importantes, destacava-se como um próspero centro comercial e religioso, abrigando a Caaba, um santuário que continha centenas de ídolos adorados pelas diversas tribos árabes e que atraía peregrinos de toda a região.

Foi neste cenário que nasceu Maomé (Muhammad), por volta do ano de 570 d.C., na tribo dos coraixitas (Quraysh), a facção dominante de Meca. Órfão desde muito cedo, ele foi criado pelo avô e, posteriormente, pelo tio Abu Talib, inserindo-se na rota das caravanas de comércio. Reconhecido por sua honestidade e integridade, Maomé casou-se com Cadija (Khadija), uma rica viúva comerciante, o que lhe proporcionou estabilidade financeira e tempo para se dedicar a reflexões espirituais, muitas vezes retirando-se para as montanhas ao redor da cidade em busca de isolamento.

As revelações divinas

O ponto de virada histórico e espiritual ocorreu por volta do ano de 610 d.C., quando Maomé estava com cerca de 40 anos. Durante um de seus retiros na Caverna de Hira, a tradição islâmica relata que ele recebeu a primeira de muitas revelações divinas através do anjo Gabriel (Jibril). A ordem do anjo para ele “recitasse” marcou o início da transmissão do Alcorão (Corão), o livro sagrado do Islã, cujas revelações continuariam a moldar a nova fé ao longo dos 22 anos seguintes.

A mensagem central que Maomé começou a pregar era radicalmente oposta às crenças vigentes em Meca: a afirmação do monoteísmo absoluto (Tawhid), a submissão à vontade de um único Deus (Allah) e a iminência do Juízo Final. Além da mudança teológica, a nova religião trazia uma forte mensagem de justiça social, criticando o materialismo, a exploração dos pobres e as desigualdades promovidas pela elite comercial. O próprio termo “Islã” significa “submissão” a Deus, e seus seguidores passaram a ser chamados de “muçulmanos”.

Essa pregação, no entanto, encontrou forte e feroz resistência por parte dos líderes coraixitas. A elite de Meca via a mensagem monoteísta de Maomé não apenas como uma ofensa às tradições de seus antepassados, mas principalmente como uma ameaça direta à economia local, que dependia fortemente da peregrinação politeísta à Caaba. Consequentemente, os primeiros muçulmanos — muitos deles escravos, pobres e pessoas marginalizadas — passaram a sofrer intensas perseguições, boicotes sociais e severas agressões físicas.

Diante da crescente hostilidade, a sobrevivência da nascente comunidade muçulmana exigiu uma decisão drástica, culminando no evento histórico conhecido como Hégira (Hijra), no ano de 622 d.C. Maomé e seus seguidores migraram de Meca para a cidade de Yathrib, que posteriormente foi rebatizada como Medina (Madinat al-Nabi, “a Cidade do Profeta”). A Hégira é um marco tão fundamental na história do islamismo que foi escolhida como o ponto de partida do calendário islâmico, simbolizando a transição de um grupo perseguido para uma comunidade política e religiosamente organizada (a Ummah).

Influência do islamismo

Em Medina, Maomé não atuou apenas como líder espiritual, mas também como chefe de Estado, diplomata e comandante militar, unindo tribos locais outrora rivais sob a famosa Constituição de Medina. Os anos seguintes foram marcados por uma série de conflitos armados entre os muçulmanos de Medina e as forças de Meca, incluindo batalhas cruciais como as de Badr, Uhud e da Trincheira. Mediante vitórias militares e alianças estratégicas, a influência do Islã expandiu-se rapidamente, enfraquecendo progressivamente o poder da elite coraixita.

O triunfo final de Maomé sobre sua cidade natal ocorreu em 630 d.C., quando ele marchou sobre Meca com um grande exército e a conquistou de forma praticamente pacífica. Em um ato de imenso simbolismo, ele purificou a Caaba, destruindo todos os ídolos politeístas e consagrando o santuário exclusivamente à adoração de Allah. Quando Maomé faleceu em 632 d.C., o islamismo já havia se consolidado como a força unificadora da Península Arábica, lançando as bases religiosas, militares e políticas para as grandes conquistas que, nas décadas seguintes, transformariam a fé muçulmana em um vasto império global.

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