HiperHistória
AstronomiaCiência

Qual a origem da teoria da Terra plana?

Qual a origem da teoria da Terra plana?
Foto: Google Gemini/HiperHistória

A ideia de que a Terra é um disco estático sob uma cúpula é, curiosamente, uma das teorias mais antigas e, ao mesmo tempo, uma das mais modernas no que diz respeito ao seu “renascimento”. Embora a maioria das civilizações antigas tivesse essa percepção baseada na observação puramente visual, a origem da teoria da Terra plana moderna não é uma herança direta da Idade Média, mas sim um produto do ceticismo vitoriano do século XIX.

Nos primórdios da civilização, a visão de uma Terra plana era o padrão. Culturas na Mesopotâmia e no Egito Antigo descreviam o mundo como um disco flutuando em um oceano infinito, protegido por uma abóbada celeste. Essa percepção era puramente intuitiva: para quem olha para o horizonte sem instrumentos avançados, a superfície parece, de fato, não ter curvatura.

Das cosmologias antigas ao pensamento grego

No entanto, essa noção começou a ruir cedo na história. Por volta do século VI a.C., filósofos gregos como Pitágoras e Parmênides já propunham a esfericidade. Mais tarde, Aristóteles consolidou essa ideia com evidências físicas, como a sombra curva da Terra na Lua durante eclipses. Ao contrário do que muitos pensam, a elite intelectual da Idade Média já sabia perfeitamente que a Terra era um globo.

O renascimento moderno com Samuel Rowbotham

A Terra plana como a conhecemos hoje “nasceu” de fato em 1838, com um inglês chamado Samuel Rowbotham. Sob o pseudônimo de “Parallax”, ele publicou um panfleto intitulado Zetetic Astronomy. Ele baseou suas ideias em uma interpretação literal de certos trechos bíblicos e em um experimento realizado no Rio Bedford, na Inglaterra.

Rowbotham afirmou que, ao observar um barco ao longo de um trecho reto de seis milhas do rio, ele não detectou a curvatura esperada pela geometria esférica. O que ele ignorou (ou desconhecia) foi o efeito da refração atmosférica, que curva a luz e permite ver objetos além da curvatura física da Terra. Seus escritos deram origem ao movimento “zetético”, que prioriza a observação sensorial sobre a teoria científica.

A era da fé e o ativismo de Lady Blount

Após a morte de Rowbotham, a causa foi assumida por figuras como Lady Elizabeth Blount, que fundou a Sociedade Eclética Universal. No final do século XIX, o movimento estava fortemente ligado ao fundamentalismo religioso. Para esses defensores, aceitar o globo era aceitar a ciência moderna em detrimento das escrituras, o que eles consideravam uma heresia perigosa.

“A teoria da Terra plana moderna não surgiu por falta de ciência, mas como uma reação contra a autoridade da ciência institucionalizada.”

A sociedade da Terra plana e a corrida espacial

O movimento cruzou o oceano e chegou aos Estados Unidos, mas perdeu força até 1956, quando Samuel Shenton fundou a International Flat Earth Research Society. O maior desafio de Shenton foi a Corrida Espacial. Quando a NASA começou a divulgar fotos da Terra vista do espaço, Shenton e seus seguidores simplesmente adaptaram a narrativa, alegando que as imagens eram falsificações feitas com lentes olho-de-peixe e manipulação visual.

Com a morte de Shenton, Charles K. Johnson assumiu a liderança na década de 1970, transformando a sociedade em um movimento de resistência contra a “conspiração globalista”. Foi nessa época que se cristalizou a ideia de que a Antártida não é um continente, mas uma barreira de gelo que circunda o disco terrestre, impedindo que a água e os homens “caiam” para fora.

A revolução digital e o algoritmo

O verdadeiro “boom” contemporâneo ocorreu com a ascensão das redes sociais e do YouTube, a partir de 2015. O algoritmo de recomendação passou a entregar conteúdos de “questionamento” para pessoas interessadas em conspirações. O apelo moderno não é mais apenas religioso, mas político: uma profunda desconfiança nas instituições governamentais e na elite científica.

Hoje, a teoria da Terra plana funciona como uma porta de entrada para outras teorias da conspiração. Ela oferece uma sensação de comunidade e superioridade intelectual (“eu sei a verdade que o sistema esconde”). O que começou com um experimento falho em um rio inglês tornou-se um fenômeno cultural que desafia não apenas a física, mas a própria noção de verdade compartilhada na era digital.

Leia também

Mitologia egípcia: conheça cada uma delas

HiperHistória

Quem construiu as pirâmides do Egito?

HiperHistória

A Idade Média foi mesmo a “Idade das Trevas”?

HiperHistória

Réveillon: a história da noite de 31 de dezembro

HiperHistória

Quem realmente construiu as pirâmides do Egito?

HiperHistória

A relação entre o Antigo Egito e o Nilo

HiperHistória

Usamos cookies para melhorar sua experiência, analisar tráfego e personalizar conteúdo. Ao continuar, você concorda. Ok Leia mais