HiperHistória
Almanaque dos Papas

Bento XVI, papa emérito, morria há 3 anos

Bento XVI, papa emérito, morria há 3 anos
Foto: Google Gemini/HiperHistória

Joseph Aloisius Ratzinger, conhecido mundialmente como Papa Bento XVI, faleceu há exatos três anos, em 31 de dezembro de 2022, encerrando uma trajetória singular na história da Igreja Católica. Nascido na Baviera, Alemanha, em 1927, numa família modesta e profundamente católica, sua juventude foi marcada pela ascensão do nazismo e pelos horrores da Segunda Guerra Mundial. Apesar de ter sido conscrito à força na juventude hitlerista e posteriormente na Wehrmacht, Ratzinger manteve sua fé inabalável, desertando perto do fim da guerra para seguir sua verdadeira vocação. Foi ordenado padre em 1951, juntamente com seu irmão mais velho, Georg.

Desde cedo, Ratzinger destacou-se por sua inteligência brilhante e profunda capacidade teológica. Iniciou uma carreira acadêmica meteórica, lecionando em prestigiadas universidades alemãs como Bonn, Münster e Tübingen. Sua contribuição foi fundamental durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), onde atuou como peritus (especialista teológico) do Cardeal Frings de Colônia. Naquela época, era visto como um teólogo reformista, trabalhando ao lado de nomes como Karl Rahner e Hans Küng na modernização da teologia católica.

Arcebispo de Munique e Freising

No entanto, as convulsões sociais e estudantis de 1968, com sua inclinação marxista e questionamento radical da autoridade, marcaram profundamente Ratzinger, levando-o a adotar uma postura mais cautelosa e conservadora em relação à tradição e à liturgia. Em 1977, sua vida acadêmica foi interrompida quando o Papa Paulo VI o nomeou Arcebispo de Munique e Freising e, pouco depois, o criou cardeal, inserindo-o diretamente na alta hierarquia da Igreja.

Há 3 anos morria o papa emérito Bento XVI
Foto: Google Gemini/HiperHistória

O capítulo mais longo de sua vida pública antes do papado começou em 1981, quando o Papa João Paulo II o chamou a Roma para assumir a prefeitura da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF). Por quase 24 anos, o Cardeal Ratzinger foi o “braço direito” teológico do papa polonês, atuando como o guardião da ortodoxia católica. Sua gestão foi marcada pela firmeza doutrinária, combatendo interpretações que considerava errôneas da Teologia da Libertação e defendendo posições tradicionais da Igreja sobre moralidade sexual e o sacerdócio feminino, o que lhe rendeu apelidos como “Panzerkardinal” por parte de seus críticos.

Em abril de 2005, após a morte de João Paulo II, Ratzinger foi eleito papa num conclave rápido, escolhendo o nome de Bento XVI. Aos 78 anos, era um dos papas mais velhos a assumir o pontificado na história recente. Sua eleição foi vista como um sinal de continuidade em relação ao seu predecessor e uma garantia de estabilidade doutrinária para uma Igreja que enfrentava os desafios da secularização crescente no Ocidente.

Seu pontificado foi caracterizado não por gestos midiáticos, mas pela profundidade de seu magistério. Bento XVI foi, acima de tudo, um “papa teólogo”, cujas encíclicas sobre o amor (Deus Caritas Est) e a esperança (Spe Salvi) foram aclamadas por sua beleza e densidade. Ele dedicou grande parte de seu esforço a combater o que chamou de “ditadura do relativismo”, insistindo na harmonia necessária entre a fé e a razão, e buscou promover uma “hermenêutica da continuidade” na interpretação do Concílio Vaticano II, além de ter liberalizado o uso da missa tradicional em latim.

Vatileaks

No entanto, seus oito anos como Sumo Pontífice foram marcados por crises intensas. Bento XVI enfrentou o auge do escândalo global de abusos sexuais cometidos pelo clero. Embora tenha sido o primeiro papa a tomar medidas canônicas mais duras e a encontrar-se sistematicamente com vítimas, sua administração foi criticada por não agir com rapidez suficiente em casos anteriores, quando ainda era Prefeito da CDF.

Além dos escândalos de abuso, seu governo foi abalado por crises internas e problemas de comunicação. O caso “Vatileaks”, em 2012, no qual seu próprio mordomo vazou documentos confidenciais que revelavam lutas de poder e corrupção na Cúria Romana, foi um golpe pessoal devastador para o pontífice. Além disso, episódios como o discurso de Regensburg em 2006, que gerou protestos no mundo islâmico, evidenciaram as dificuldades da diplomacia vaticana sob sua gestão.

A renúncia de Bento XVI

Em 11 de fevereiro de 2013, Bento XVI surpreendeu o mundo ao anunciar sua renúncia, um ato que não ocorria há quase 600 anos. Em um discurso em latim aos cardeais, ele explicou que sua idade avançada e a falta de vigor físico e espiritual não lhe permitiam mais exercer adequadamente o ministério petrino no mundo moderno. Essa decisão histórica e humilde redefiniu o papado contemporâneo, criando a figura inédita do “Papa Emérito”.

Após a renúncia, Bento XVI retirou-se para o mosteiro Mater Ecclesiae, nos jardins do Vaticano, onde viveu seus últimos anos em oração e relativo silêncio, vestido de branco, mas sem as insígnias papais. Sua convivência com seu sucessor, o Papa Francisco, foi marcada por respeito mútuo, apesar das tentativas de setores da Igreja de opor os dois pontífices. Sua morte em 31 de dezembro de 2022, aos 95 anos, levou a um funeral inédito na era moderna, presidido por um papa reinante, encerrando a vida de um gigante intelectual cuja influência na teologia católica perdurará por gerações.

Leia também

Pio X: um papa antimodernista

HiperHistória

Leão XIV: como foi a votação que elegeu o papa?

HiperHistória

Por que o papa Leão XIV escolheu esse nome?

HiperHistória

Leão XIV: autor baiano lança thriller sobre o Vaticano

HiperHistória

Como surgiram os cardeais da Igreja Católica?

HiperHistória

Papa Bento XVI jamais usou sapatos Prada

HiperHistória

Usamos cookies para melhorar sua experiência, analisar tráfego e personalizar conteúdo. Ao continuar, você concorda. Ok Leia mais