Esta é uma das perguntas mais frequentes da história e a resposta acadêmica atual derruba um dos mitos mais persistentes do imaginário popular. Contrário ao que foi difundido por filmes de Hollywood e relatos do historiador grego Heródoto, as pirâmides não foram construídas por escravos. O consenso arqueológico moderno, apoiado por décadas de escavações e análises forenses, confirma que os construtores eram trabalhadores egípcios livres, recrutados pelo Estado e devidamente remunerados.
A força de trabalho era composta por dois grupos principais: uma elite permanente de artesãos altamente qualificados (arquitetos, pedreiros, cortadores de pedra e escribas) que viviam no local o ano todo, e uma força de trabalho rotativa de camponeses. Estudos indicam que esses camponeses eram recrutados, principalmente durante a temporada de cheia do Rio Nilo (o Akhet), quando a agricultura era impossível. Trabalhar na pirâmide funcionava como uma forma de pagamento de impostos por serviço (o sistema de corvée), mas também garantia sustento durante os meses de inatividade agrícola.
Tumbas dos Construtores
A prova definitiva para essa conclusão veio na década de 1990, com as descobertas dos arqueólogos Zahi Hawass e Mark Lehner no Planalto de Gizé. Eles encontraram as Tumbas dos Construtores nas proximidades diretas das grandes pirâmides. O fato de esses trabalhadores serem enterrados em túmulos de tijolos de barro, muitas vezes com formas piramidais modestas e tão perto dos faraós, demonstra que eles possuíam um status social respeitável. Jamais um escravo teria a honra de ser sepultado ao lado dos reis-deuses do Egito.
Análises bioarqueológicas realizadas nos esqueletos encontrados nessas tumbas revelaram detalhes fascinantes sobre a qualidade de vida desses operários. Os ossos mostram sinais de desgaste severo na coluna vertebral, condizente com o transporte de cargas pesadas, mas também evidenciam um sistema de saúde avançado para a época. Foram encontrados diversos esqueletos com fraturas curadas perfeitamente e até amputações bem-sucedidas, provando que eles recebiam cuidados médicos estatais para que pudessem voltar ao trabalho ou sobreviver aos acidentes.
Além da assistência médica, a dieta desses construtores era surpreendentemente rica, superior à do egípcio comum. Escavações nos arredores dos alojamentos revelaram quantidades massivas de ossos de gado, ovelhas e cabras, além de espinhas de peixe. Estudos indicam que o Estado fornecia diariamente carne, pão e cerveja em abundância para manter a força física dos operários. Isso sugere um investimento estatal gigantesco na manutenção da saúde e energia de sua força de trabalho, algo incompatível com um regime de escravidão de descarte.
A organização do trabalho nas pirâmides
A organização do trabalho também era sofisticada e motivacional. As pedras internas das pirâmides contêm grafites (marcas de pedreira) deixados pelas equipes, que se autointitulavam com nomes orgulhosos e competitivos, como “Os Bêbados de Miquerinos” ou “Os Amigos de Khufu”. Essa estrutura em “gangues” ou phyles promovia uma rivalidade saudável e um senso de identidade de grupo, indicando que havia moral e espírito de equipe na construção, e não apenas coerção.
Para abrigar essa multidão, que podia chegar a 20.000 homens no pico da construção, foi edificada uma verdadeira cidade de apoio, hoje conhecida como Heit el-Ghurab (ou a Cidade Perdida dos Construtores de Pirâmides). As escavações revelaram dormitórios estilo quartel, padarias industriais e cervejarias capazes de alimentar milhares de pessoas diariamente. Essa infraestrutura logística demonstra que a construção das pirâmides era o maior “projeto nacional” do Egito Antigo, centralizando a economia e unificando a população em torno do faraó.
Portanto, quem construiu as pirâmides foi o próprio povo egípcio, movido por uma combinação de dever religioso e incentivo econômico. Para o egípcio antigo, participar da construção da tumba do faraó — que era visto como um deus na Terra — ajudava a garantir a Maat (ordem cósmica) e a própria vida após a morte do trabalhador. Longe de ser um ato de tirania, as pirâmides são hoje entendidas academicamente como o triunfo da burocracia, da logística e da cooperação de uma nação inteira.
