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Como surgiram os cardeais da Igreja Católica?

Como surgiram os cardeais da Igreja Católica?
Foto: Google Gemini/HiperHistória

Os cardeais são os mais altos dignitários da Igreja Católica logo abaixo do Papa, conhecidos como os “Príncipes da Igreja”. O termo deriva da palavra latina cardo, que significa “dobradiça” ou “eixo”, indicando que são eles os pontos de apoio sobre os quais a governança da Igreja gira. Historicamente, eles atuam como os principais conselheiros do Pontífice e administradores da Cúria Romana, mas sua função mais famosa e crítica é a de eleger o novo sucessor de São Pedro quando a Santa Sé fica vacante.

A origem do cardinalato remonta aos primeiros séculos do cristianismo, quando o Papa, sendo o Bispo de Roma, consultava o clero local para tomar decisões. Originalmente, os cardeais eram apenas os diáconos, padres e bispos das igrejas vizinhas de Roma. É por essa razão histórica que, até hoje, quando um bispo de qualquer lugar do mundo (seja de São Paulo ou de Tóquio) é criado cardeal, ele recebe um “título” honorário de uma igreja específica em Roma, simbolizando que ele passou a fazer parte do clero romano e, portanto, tem direito a votar no seu bispo (o Papa).

A criação de cardeais

A criação de novos cardeais é um ato exclusivo e soberano do Papa, realizado em uma cerimônia solene chamada Consistório. Não é uma promoção automática na carreira eclesiástica; é uma escolha pessoal do Pontífice baseada na confiança e na representatividade geográfica ou pastoral. Durante o rito, o novo cardeal recebe o barrete vermelho (um chapéu quadrangular) e um anel, que simboliza sua fidelidade inquebrável à Igreja e seu casamento espiritual com a instituição.

Todos os cardeais juntos formam o Colégio Cardinalício, uma instituição que funciona como uma espécie de senado papal. O Colégio é presidido pelo Decano e está estruturado hierarquicamente em três ordens: cardeais-bispos, cardeais-presbíteros e cardeais-diáconos. Embora hoje todos sejam bispos ordenados (uma regra estabelecida pelo papa João XXIII), essa divisão interna preserva a antiga tradição do clero romano e define funções protocolares, como quem anuncia o Habemus Papam na varanda do Vaticano (o cardeal-protodiácono).

A função mais vital do Colégio é o Conclave. Desde o século XI, a eleição do Papa foi retirada das mãos da nobreza e do povo romano e confiada exclusivamente aos cardeais para evitar interferências políticas externas. Uma regra moderna importante, estabelecida em 1970, determina que apenas cardeais com menos de 80 anos têm direito a voto. Ao completarem essa idade, eles se tornam cardeais “não-eleitores”, mantendo o título e a honra, mas perdendo o poder de voto na Capela Sistina.

O vermelho dos cardeais

Uma das curiosidades visuais mais marcantes é a cor das vestes: o vermelho escarlate. A cor não é meramente estética; ela carrega um simbolismo dramático de martírio. Ao vestir o vermelho, o cardeal jura estar pronto para agir usque ad sanguinis effusionem — ou seja, “até o derramamento de sangue” — pela defesa da fé cristã e do Papa. Diferente dos bispos comuns que usam violeta, os cardeais carregam no corpo a lembrança constante do sacrifício final.

No passado, o título de cardeal não exigia necessariamente a ordenação sacerdotal. Durante a Renascença e até o século XIX, existiram “cardeais leigos” ou diáconos que nunca foram padres, muitas vezes figuras políticas poderosas ou membros de famílias nobres europeias. O último cardeal que não era padre foi Teodolfo Mertel, um advogado e estadista dos Estados Pontifícios que morreu em 1899; ele era diácono, mas nunca foi ordenado sacerdote, algo impossível pelas regras atuais do Direito Canônico.

Hoje, o perfil do Colégio de Cardeais mudou drasticamente. Se antes era um clube dominado por italianos e famílias nobres europeias, atualmente é um corpo globalizado que busca refletir a universalidade da Igreja. Papas recentes têm se esforçado para nomear cardeais de “periferias” geográficas, como países da Ásia, África e pequenas ilhas do Pacífico que nunca tiveram representantes na história, diluindo o poder europeu e trazendo novas visões culturais para o centro de comando do Vaticano.

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