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Almanaque dos Papas

O funeral de um papa na Idade Média

O funeral de um papa na Idade Média
O corpo do Papa Pio IX em câmara ardente

Na Idade Média, quando um papa morria a cerimônia começava imediatamente com atos públicos e privados: a verificação oficial da morte, seguida por orações na capela privada e por um período de preparação do corpo. Havia oficiais específicos — o camerlengo e outros membros da cúria — encarregados por supervisionar os ritos e os bens pontifícios, e eram estas autoridades que coordenavam a translação do corpo para a basílica e a organização das exéquias públicas. A prática medieval já combinava elementos litúrgicos (várias orações e responsos) com pompa pública que afirmava a autoridade da Sé.

Um elemento constante era o velório público (lying-in-state): o corpo do papa ficava em capela ou sala da residência pontifícia para que clero, embaixadores e fiéis pudessem prestar homenagem. Nas grandes cidades — sobretudo em Roma — isso atraía multidões; procissões e vigílias noturnas faziam parte do ritual, e a liturgia incluía leituras das Escrituras, salmos e responsórios fúnebres próprios do uso romano. Essas estações litúrgicas (a casa do falecido, a Basílica e o sepulcro) são exatamente as três “estações” que o Ordo descreve hoje, embora com formulações e ênfases atualizadas.

Preparação do corpo do papa

Quanto à preparação do corpo, as fontes medievais e regulamentos de confrarias ligadas ao serviço funerário recomendam a lavagem ritual (às vezes com água morna e vinho aromático), perfumação e o vestir com paramentos ou roupas cerimoniais. Havia também estatutos práticos (regulamentos de confrarias e capítulos) que detalhavam o modo como corpos de prelados deviam ser tratados antes das exéquias, e cronistas registram que “enxugamentos”, unções e envolturas luxuosas eram comuns — procedimentos que faziam tanto papel ritual quanto prático (reduzir odores, retardar decomposição breve para a cerimônia pública).

O funeral de um papa na Idade Média
Morte e funeral do Papa Leão XIII, procissão na Capela Sistina

A preservação do corpo ocupou sempre lugar ambíguo entre o religioso e o técnico. No período medieval não existia uma prática uniforme de embalsamamento moderno, mas usavam-se métodos de conservação: aplicação de pomadas, ervas e resinas, o enchimento com materiais absorventes, e até confecção de máscaras de cera para repor traços faciais para exibição pública. Estudos históricos mostram que, ao longo dos séculos, os restos dos pontífices às vezes foram propositadamente preservados (ou depositados em câmaras secas) — prática que, combinada com posterior curiosidade por relicários, explica por que muitos túmulos papais conservaram partes anatômicas ou “corpóreos” venerados.

A procissão fúnebre e a celebração eucarística eram o clímax ritual. O corpo era transportado em procissão solene até a basílica (em Roma normalmente a Basílica de São Pedro ou outra igreja escolhida), onde se celebrava missa exéquial pontifical com participação de bispos, cardeais e autoridades civis. No final da Idade Média havia já ritos e fórmulas padronizadas para leituras, preces pelos mortos e salmos de luto; essas partes litúrgicas mantiveram-se, com revisões, até as codificações modernas que o Ordo reúne.

O sepultamento

O sepultamento papal medieval variou conforme época e desejo do pontífice: muitos eram enterrados em suntuosos túmulos dentro de basílicas (frequentemente na própria Basílica de São Pedro ou em basílicas romanas que guardavam memoriais do pontificado), por vezes com sarcófagos e epitáfios que sublinhavam sua autoridade e santidade. O local do sepultamento podia ser marcado por relíquias e objetos simbólicos (insígnias, oratórios, depósitos escritos) e, historicamente, a escolha do local também tinha carga política e simbólica — reforçando memória dinástica ou ligação a ordens religiosas às quais o papa pertencia.
Financial Times

Finalmente, é importante notar o passo histórico até o Ordo moderno: os ritos papais foram sistematizados e simplificados várias vezes (especialmente após o Concílio Vaticano II), e a edição contemporânea do Ordo Exsequiarum Romani Pontificis (publicada em versões recentes — 1998 e revista em 2024) resume hoje as etapas: verificação pública da morte, tradução do corpo, velório público, missa exequial e translado final, com indicações práticas sobre caixões e sinais litúrgicos.

As reformas modernas também refletem escolhas pastorais (ênfase no papa como pastor, não em ornamentos monárquicos) e em procedimentos técnicos mais dignos e sanitariamente corretos para a preservação temporária do corpo durante as exéquias.

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