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A morte de Inês de Castro

A morte de Inês de Castro
A Coroação de Inês de Castro em 1361, por Pierre-Charles Comte

A história de Inês de Castro é uma das mais trágicas e célebres da monarquia portuguesa. Nascida na Galícia no início do século XIV, Inês chegou a Portugal como dama de companhia de Constança Manuel, esposa do infante Dom Pedro, herdeiro do trono. No entanto, logo Inês e Pedro se apaixonaram profundamente, dando início a um romance escandaloso para a corte da época. Mesmo após a morte de Constança, o rei Dom Afonso IV, pai de Pedro, não permitiu o casamento com Inês, temendo que sua ligação com famílias galegas inimigas ameaçasse a estabilidade política do reino.

Apesar da oposição real, Pedro manteve Inês como sua companheira, vivendo com ela abertamente no Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra. O casal teve quatro filhos, e a convivência pública entre eles enfurecia a corte e o rei. A influência da família de Inês crescia, gerando receios de uma possível intervenção castelhana nos assuntos portugueses. Pressionado por conselheiros e pela situação política, Dom Afonso IV tomou uma decisão drástica: em 1355, ordenou a execução de Inês.

A morte brutal de Inês de Castro

Inês de Castro foi morta brutalmente no Paço de Santa Clara por três cavaleiros a mando do rei. Conta-se que ela implorou pela vida dos filhos e tentou se refugiar no convento, mas foi decapitada diante de testemunhas. A morte de Inês deixou Pedro inconsolável e profundamente revoltado. Quando assumiu o trono como Pedro I em 1357, ele iniciou uma perseguição implacável aos assassinos da amada. Dois dos responsáveis foram capturados na França e levados a Portugal, onde o rei mandou arrancar-lhes o coração – literalmente – como vingança simbólica e sangrenta.

Mas o episódio mais lendário da história viria depois. Pedro afirmava que ele e Inês haviam se casado secretamente, tornando-a, portanto, sua esposa legítima e rainha de jure. Em 1361, ele ordenou a transladação dos restos mortais de Inês para o Mosteiro de Alcobaça com todas as honras reais. Durante o cortejo, teria obrigado a corte a acompanhar o caixão como se ela ainda estivesse viva e reinando.

Rainha póstuma

Segundo a tradição, reforçada por crônicas e pela literatura, Pedro teria mandado vestir Inês com trajes reais e colocado a coroa em sua cabeça, exigindo que os nobres a beijassem a mão, reconhecendo-a como rainha de Portugal, mesmo após a morte. Embora essa cena tenha elementos de possível embelezamento poético, é certo que a coroação simbólica e a exumação de Inês representaram um ato extremo de amor e de desafio às normas e ao poder que haviam condenado sua amada.

A sepultura de Inês foi feita com todo o esplendor. Pedro mandou construir dois túmulos monumentais em pedra calcária branca no Mosteiro de Alcobaça, colocados frente a frente. A ideia era que, no dia da ressurreição, Pedro e Inês despertassem e se reencontrassem com o primeiro olhar. Os túmulos são considerados obras-primas do gótico português, com inscrições, estátuas e relevos que narram o amor e o martírio da rainha póstuma.

A história de Pedro e Inês atravessou os séculos, sendo contada em poemas, romances, óperas e pinturas. Camões a incluiu em Os Lusíadas, e sua tragédia inspirou autores como Almeida Garrett e Victor Hugo. Mais que um caso de amor, a morte e coroação de Inês de Castro se tornaram símbolo da luta entre paixão e poder, e da forma como o amor pode desafiar até a morte – e vencer, mesmo que tardiamente.

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