Na Itália e em círculos tradicionalistas católicos, circula há décadas uma teoria controversa sobre a suposta eleição do cardeal Giuseppe Siri como papa em ao menos dois conclaves do século XX. Segundo essa hipótese, Siri teria sido eleito em 1958, adotando o nome Gregório XVII, mas teria renunciado imediatamente — ou sido forçado a renunciar — antes de o resultado ser anunciado ao mundo. A tese sustenta que pressões políticas e ameaças, possivelmente envolvendo interesses comunistas ou maçônicos, teriam impedido a proclamação de sua eleição. Essas alegações, porém, nunca foram comprovadas e são amplamente rejeitadas por historiadores sérios da Igreja.
O cardeal Giuseppe Siri (1906–1989) foi arcebispo de Gênova por mais de 40 anos e uma das figuras mais influentes da ala conservadora da Igreja Católica no século XX. Era conhecido por sua firme oposição ao comunismo e à modernização acelerada da Igreja, especialmente durante e após o Concílio Vaticano II. Por essas razões, muitos o viam como um papabile, ou seja, um candidato plausível ao papado. Ele participou de quatro conclaves: os de 1958, 1963, agosto de 1978 e outubro de 1978.
A teoria Siri
Segundo os defensores da chamada “teoria Siri”, o conclave de 1958 teria tido um momento decisivo em que Siri alcançou o número necessário de votos, tornando-se legitimamente eleito. O nome Gregório XVII teria sido escolhido em homenagem aos papas do pós-Reforma. Porém, de acordo com essas alegações, logo após a eleição ter sido confirmada, o resultado teria sido revertido sob coação. A fumaça branca que apareceu momentaneamente no dia 26 de outubro de 1958, antes da eleição de João XXIII ser oficialmente anunciada, é frequentemente citada como evidência dessa suposta eleição frustrada.
Do ponto de vista histórico e documentado, no entanto, não há prova concreta de que Siri tenha sido eleito papa em nenhum conclave. Todos os registros conhecidos indicam que no conclave de 1958 o cardeal Angelo Giuseppe Roncalli (futuro João XXIII) foi eleito regularmente. A fumaça branca precoce é explicada por falhas técnicas na queima dos votos, algo que já ocorreu em outros conclaves. Os conclavistas estariam testando a queima correta dos materiais usados para sinalizar o resultado.

Nos conclaves subsequentes, especialmente os de 1963 e 1978, Siri novamente foi considerado um candidato forte, mas nunca obteve votos suficientes para garantir a eleição. Relatos de jornalistas e alguns cardeais indicam que ele teve um desempenho sólido nas primeiras votações, mas que seu perfil rígido e inflexível impediu a obtenção do consenso necessário entre os cardeais eleitores. Em 1963, por exemplo, o cardeal Montini (futuro Paulo VI) emergiu como o nome de equilíbrio. Em 1978, Siri teria sido novamente considerado, mas perdeu para Luciani (João Paulo I) e depois para Wojtyła (João Paulo II).
A influência de Giuseppe Siri
A teoria Siri ganhou força nos anos 1980 e 1990 entre grupos sedevacantistas e católicos ultratradicionalistas que rejeitavam as reformas do Concílio Vaticano II. Alguns chegaram a afirmar que todos os papas desde João XXIII seriam ilegítimos, e que Siri seria o “papa oculto”, vivendo sob silêncio forçado até sua morte em 1989. Essa narrativa foi alimentada por especulações, documentos não verificados e interpretações subjetivas de eventos.
Em resumo, o cardeal Giuseppe Siri foi de fato um dos nomes mais influentes em vários conclaves do século XX, sempre lembrado como um conservador de peso. Contudo, as alegações de sua eleição e renúncia sob coação não têm fundamento documental sólido e são rejeitadas pela historiografia oficial da Igreja. A realidade histórica, embora menos conspiratória, mostra um homem de princípios firmes, admirado por muitos, mas que nunca conseguiu reunir apoio suficiente para ser eleito Papa.
