A viagem dos africanos escravizados da África até o Brasil, conhecida como “travessia do Atlântico” ou “passagem do meio”, foi uma das etapas mais cruéis do tráfico negreiro transatlântico. Durante mais de três séculos, milhões de pessoas foram capturadas, separadas de suas famílias e transportadas à força para as Américas em navios negreiros, sob condições desumanas.
O processo começava ainda no continente africano. Povos inteiros eram atacados por expedições militares ou capturados por chefes locais que faziam alianças com traficantes europeus em troca de armas, tecidos, aguardente, sal e outros produtos. Os cativos eram levados a portos importantes como Luanda, Uidá e Cacheu, onde passavam dias ou semanas presos em fortificações conhecidas como “barracões” ou “casas de escravos”. Ali, sofriam fome, maus-tratos e doenças, à espera do embarque para o outro lado do Atlântico.
O embarque na África
O embarque nos navios era um momento traumático. Os africanos eram acorrentados, separados por sexo e idade, despidos e tratados como mercadorias. Nos porões das embarcações, viajavam amontoados, com pouco espaço para se mover, muitas vezes deitados lado a lado, sem ventilação ou higiene. As viagens podiam durar de 30 a 60 dias, dependendo das condições climáticas e da rota. Durante a travessia, eram alimentados com pequenas porções de comida — muitas vezes impróprias — e água racionada. Doenças como escorbuto, disenteria e varíola se espalhavam rapidamente, e a taxa de mortalidade podia chegar a 20% em certas viagens.
As mulheres, além do sofrimento físico, frequentemente eram vítimas de abusos sexuais por parte dos tripulantes. Crianças eram separadas dos pais e também submetidas ao mesmo tratamento brutal. Os gritos, o calor sufocante, o cheiro de sangue e excrementos transformavam o porão do navio em um inferno flutuante. Muitos africanos, diante do desespero, preferiam a morte, jogando-se ao mar ou recusando-se a comer. As tripulações tentavam impedir suicídios com castigos ou pela força.
Ao chegar ao litoral brasileiro — sobretudo nos portos da Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco —, os sobreviventes eram desembarcados em locais chamados “casas de engorda” ou “mercados de escravos”. Antes de serem vendidos, passavam por um processo de recuperação física forçada, com alimentação reforçada, banhos, aplicação de óleos no corpo e, em alguns casos, marcações a ferro quente para identificação do novo “proprietário”.
A viagem dos escravizados não foi apenas uma travessia oceânica, mas uma ruptura violenta com sua terra, sua cultura e sua dignidade. Foi uma experiência marcada pelo sofrimento extremo, que deixou cicatrizes profundas na história do Brasil e das Américas. Compreender essa realidade é essencial para reconhecer o impacto duradouro da escravidão e suas consequências ainda visíveis na sociedade atual.
