José de Alencar (1829–1877) é um dos maiores nomes da literatura brasileira do século XIX, conhecido por seu papel fundamental na consolidação do romance nacional. Advogado, jornalista, político e romancista, Alencar escreveu obras que buscavam retratar a identidade brasileira, explorando a natureza, os costumes e a formação histórica do país. Suas obras, que estão em domínio público, continuam a ser estudadas e apreciadas por seu valor literário e cultural.
Uma de suas obras mais emblemáticas é “O Guarani” (1857), romance indianista que mistura elementos do romantismo europeu com a paisagem e a mitologia indígena brasileira. A história gira em torno do amor entre a jovem Ceci, filha de um nobre português, e Peri, um índio goitacá idealizado como herói nativo. O romance exalta valores como bravura, lealdade e sacrifício, e marcou o início da trilogia indianista de Alencar. A obra também foi adaptada para ópera por Carlos Gomes, reforçando seu impacto na cultura nacional.
Dando continuidade à trilogia, “Iracema” (1865) é talvez a obra mais poética e simbólica de Alencar. Com uma linguagem lírica e marcada por imagens da natureza, o romance narra a história de amor entre o português Martim e a índia Iracema, representando o encontro entre o colonizador e o nativo. A personagem-título é vista como uma metáfora da terra brasileira, enquanto o filho do casal, Moacir, simboliza o nascimento do povo mestiço. “Iracema” é frequentemente interpretada como uma alegoria da formação do Brasil.
O terceiro livro da trilogia é “Ubirajara” (1874), ambientado em um Brasil pré-cabralino e sem presença europeia. O foco da narrativa está nas tradições indígenas e na figura do guerreiro que dá nome à obra. Ao contrário de “O Guarani” e “Iracema”, este romance busca apresentar a cultura indígena em sua própria lógica, sem interferência externa. Alencar idealiza os costumes nativos, tratando-os com respeito e heroísmo, num esforço de construir um passado mítico nacional.
Outra obra importante é “Senhora” (1875), considerada um dos grandes romances urbanos de Alencar. A narrativa gira em torno de Aurélia Camargo, uma jovem rica e determinada que manipula um casamento de conveniência para se vingar de um amor do passado. O livro é uma crítica à sociedade burguesa e ao casamento por interesse, além de abordar temas como a emancipação feminina e o papel da mulher na sociedade patriarcal do século XIX.
Também merece destaque “Lucíola” (1862), parte da série de romances urbanos de Alencar. A história foca na personagem Lúcia, uma cortesã que, apesar de sua condição social, possui um passado dramático e um caráter nobre. O narrador, Paulo, se apaixona por ela e relata sua transformação moral. “Lucíola” discute questões como o julgamento social, a hipocrisia da elite carioca e a possibilidade de redenção moral, mantendo um tom de crítica social sutil e envolvente.
Por fim, “Diva” (1864) complementa os romances de costumes do autor, apresentando a figura de Emília, uma jovem bela, culta e irônica que manipula os sentimentos dos homens ao seu redor. O romance oferece uma visão sofisticada das relações amorosas e da condição feminina. José de Alencar, em todas essas obras hoje em domínio público, legou ao Brasil uma literatura profundamente envolvida na construção de sua identidade cultural, explorando mitos fundadores, críticas sociais e dilemas humanos que ainda ressoam com os leitores contemporâneos.
