João Paulo II e o hospital que virou seu Vaticano III

A Policlínica Gemelli, em Roma, tornou-se um endereço familiar para o papa polonês. Entre 1981 e 2005, ele foi internado dez vezes no hospital, onde continuou a enviar mensagens aos católicos durante os tratamentos

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O papa João Paulo II chamou a Policlínica Agostino Gemelli, em Roma, de Vaticano III, em referência à importância que o hospital adquiriu em sua vida e em seu pontificado. Entre 1981 e 2005, o líder da Igreja Católica passou por dez internações no local para tratar ferimentos, realizar cirurgias e receber cuidados médicos.

O apelido expressava a familiaridade de Karol Wojtyła com a instituição, ligada à Universidade Católica do Sagrado Coração. O hospital tornou-se um dos lugares mais associados aos problemas de saúde do pontífice, que continuou a exercer parte de suas funções mesmo durante os tratamentos.

A primeira internação ocorreu em 13 de maio de 1981, quando João Paulo II foi gravemente ferido por disparos durante um atentado na Praça de São Pedro. Levado ao Gemelli, passou por uma cirurgia de emergência e iniciou uma longa recuperação. A partir daquele dia, o hospital ficou ligado a alguns dos momentos mais delicados de sua trajetória.

Por que João Paulo II chamava o hospital de Vaticano III?

O apelido Vaticano III fazia referência aos três lugares associados à rotina do pontífice. O Vaticano, onde ficava sua residência oficial, era o centro de suas atividades. Castel Gandolfo, residência papal de verão, funcionava como outro local de trabalho e descanso.

O Gemelli tornou-se uma espécie de terceiro endereço institucional. Durante as internações, João Paulo II recebia informações, acompanhava acontecimentos da Igreja e enviava mensagens aos católicos. A expressão ficou associada à longa relação que construiu com o hospital, especialmente durante as internações dos últimos anos de seu pontificado.

A denominação é conhecida por relatos sobre a vida do papa, mas não deve ser confundida com um título oficial atribuído à instituição. Seu significado está na frequência com que Wojtyła precisou recorrer aos cuidados médicos do Gemelli e na continuidade de sua atividade pastoral durante esses períodos.

As dez internações de João Paulo II no Gemelli

Segundo uma retrospectiva do Vatican News, João Paulo II foi internado dez vezes no Gemelli entre 1981 e 2005. Essa contagem considera hospitalizações, não visitas oficiais ao complexo médico.

A primeira internação aconteceu em maio de 1981, após o atentado cometido pelo turco Mehmet Ali Ağca. Em 20 de junho, o papa retornou ao hospital por complicações infecciosas, incluindo uma infecção por citomegalovírus. Recebeu alta em 14 de agosto, depois de meses de tratamento e de uma nova intervenção cirúrgica.

Em julho de 1992, João Paulo II foi internado para retirar um tumor intestinal, posteriormente identificado como benigno. No ano seguinte, voltou ao Gemelli para exames e para tratar uma luxação no ombro.

Em abril de 1994, uma queda provocou uma fratura no fêmur direito. O pontífice passou por uma cirurgia para implantação de uma prótese e permaneceu hospitalizado até 27 de maio. A recuperação exigiu que adaptasse temporariamente sua rotina às limitações físicas.

Em 1996, o papa retornou ao hospital para uma cirurgia relacionada à apendicite. Nos anos seguintes, novas internações e avaliações médicas acompanharam o agravamento de sua condição física.

Em fevereiro de 2005, uma crise respiratória associada a uma infecção aguda da laringe levou a outra hospitalização. João Paulo II voltou ao Gemelli no fim daquele mês e permaneceu sob cuidados médicos até 13 de março. Morreu no Vaticano em 2 de abril de 2005.

A contagem de dez internações corresponde ao balanço retrospectivo que considera todo o período entre 1981 e 2005. Levantamentos jornalísticos anteriores registravam números menores porque haviam sido publicados antes das últimas hospitalizações.

Os discursos antes e durante as internações

João Paulo II procurou manter contato com os fiéis mesmo quando não podia comparecer à Praça de São Pedro. Para isso, recorria a mensagens gravadas, pronunciamentos transmitidos pela televisão e textos lidos por representantes da Santa Sé.

O Angelus e o Regina Caeli, orações tradicionalmente conduzidas aos domingos, tornaram-se meios importantes para manter essa proximidade. Os pronunciamentos também permitiam ao pontífice agradecer as orações recebidas e explicar sua condição de saúde.

Maio de 1981: perdão ao agressor

Em 17 de maio de 1981, quatro dias após o atentado, João Paulo II enviou uma mensagem gravada do Gemelli aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro. Agradeceu as orações e declarou ter perdoado sinceramente o homem que atirara contra ele.

O papa também manifestou solidariedade às outras pessoas feridas no atentado. Sua mensagem associava a recuperação à fé cristã e à disposição de oferecer o próprio sofrimento pela Igreja e pelo mundo.

Em 24 de maio, voltou a se dirigir aos católicos, dessa vez com uma reflexão sobre os enfermos. Recordou o desejo de apoiar seu ministério especialmente nas pessoas que sofriam e relacionou a experiência da doença à espiritualidade cristã.

Durante a recuperação, continuou a enviar mensagens dominicais. Em 2 de agosto, refletiu sobre a oração como forma de aproximação de Deus, apesar da distância física entre ele e os fiéis. Uma semana depois, abordou a paternidade divina e a figura de Jesus Cristo.

Em 14 de agosto, ao receber alta, agradeceu aos médicos, enfermeiros, religiosos e demais profissionais responsáveis por seu tratamento. Depois de aproximadamente três meses de hospitalização, começava uma nova etapa de recuperação antes de retomar plenamente suas atividades.

Julho de 1992: o anúncio da internação

Em 12 de julho de 1992, João Paulo II anunciou durante o Angelus que seria internado naquela noite para realizar exames médicos. Pediu orações aos fiéis e expressou confiança na proteção da Virgem Maria.

Após receber alta, voltou a falar publicamente em 2 de agosto. Agradeceu a solidariedade recebida durante o tratamento e mencionou o período de recuperação em Castel Gandolfo.

Esses pronunciamentos evidenciam um padrão de comunicação: o papa informava os fiéis sobre a necessidade de tratamento e procurava retomar o contato público assim que suas condições permitiam.

Maio de 1994: mensagens durante a recuperação

A fratura do fêmur, em abril de 1994, impediu João Paulo II de cumprir compromissos previstos. Em 1º de maio, durante o Regina Caeli, lamentou não poder realizar a visita programada à Sicília e afirmou que acompanhava os fiéis por meio da oração.

Em 15 de maio, ainda hospitalizado, refletiu sobre a Ascensão de Jesus e a esperança cristã diante das limitações humanas. Após receber alta, agradeceu publicamente aos profissionais que cuidaram dele.

Outubro de 1996: o hospital como lugar de esperança

Em 13 de outubro de 1996, João Paulo II conduziu o Angelus a partir do Gemelli. Sua mensagem dirigiu atenção especial aos enfermos e aos profissionais de saúde, destacando o cuidado com a vida e a esperança diante do sofrimento.

O pronunciamento reforçou a associação entre o hospital e a atividade pastoral do pontífice. Mesmo internado, ele procurava transformar sua experiência de paciente em uma oportunidade de diálogo com os católicos.

As últimas internações e a despedida dos fiéis

Em fevereiro de 2005, o agravamento dos problemas respiratórios limitou ainda mais a capacidade de João Paulo II de falar em público. Em 6 de fevereiro, enviou uma mensagem de agradecimento aos profissionais de saúde e aos fiéis que demonstravam solidariedade.

Em 27 de fevereiro, o arcebispo Leonardo Sandri leu na Praça de São Pedro a mensagem do Angelus, enquanto o papa acompanhava a oração do hospital. O texto relacionava o sofrimento à confiança cristã e agradecia as manifestações de apoio.

Em 13 de março, depois de semanas de tratamento, João Paulo II deixou o Gemelli e retornou ao Vaticano. Sua condição, porém, continuava delicada. Em 2 de abril de 2005, morreu aos 84 anos, após quase 27 anos de pontificado.

Durante a última internação, as aparições do papa na janela do décimo andar atraíram a atenção internacional. Em 6 de março, ele apareceu brevemente para saudar e abençoar os fiéis reunidos diante do hospital, embora já não conseguisse pronunciar pessoalmente toda a mensagem dominical.

O vínculo com a instituição também ganhou uma expressão permanente em junho de 2009, quando foi inaugurada diante da entrada principal do Gemelli uma estátua de João Paulo II. Intitulada Non abbiate paura — “Não tenhais medo” —, a obra foi criada pelo escultor Stefano Pierotti e mede aproximadamente 4,60 metros com o pedestal.

A homenagem recorda a relação entre o papa e o hospital que ficou conhecido como seu Vaticano III. Para João Paulo II, o Gemelli foi tanto um lugar de tratamento quanto um espaço de comunicação com os fiéis, onde continuou a transmitir mensagens religiosas mesmo quando sua saúde o impedia de exercer normalmente as atividades públicas.

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