Benjamin Abrahão Calil Botto nasceu, segundo sua família, em 1901, em Zahle, então pertencente ao Império Otomano e hoje no Líbano. Ele chegou ao Recife em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, e passou a trabalhar como mascate pelo interior do Nordeste. Mais tarde, estabeleceu-se em Juazeiro do Norte, aproximou-se de Padre Cícero e tornou-se seu secretário particular, posição que lhe permitiu circular entre religiosos, políticos, comerciantes e personagens influentes do sertão.
A relação com Lampião começou antes das famosas fotografias. Em março de 1926, Virgulino Ferreira da Silva esteve em Juazeiro do Norte numa visita articulada por Floro Bartolomeu e encontrou-se com Padre Cícero. A documentação consultada pela Brasiliana Fotográfica considera provável que Benjamin tenha conhecido Lampião nessa ocasião. O encontro ocorreu num contexto excepcional: Lampião foi incorporado ao chamado Batalhão Patriótico, recebeu a patente honorária de capitão e obteve armas, munições e uniformes, embora o acordo com as autoridades tenha durado pouco.
Depois da morte de Padre Cícero, em 20 de julho de 1934, Benjamin decidiu transformar sua experiência sertaneja em um projeto de documentação do cangaço. Por volta de 1935, apresentou a ideia a Adhemar Bezerra de Albuquerque, proprietário da Aba Film, em Fortaleza, que forneceu equipamentos fotográficos e cinematográficos, filmes e instruções básicas para utilizá-los. A partir daí, Benjamin passou a procurar Lampião no território onde o bando se deslocava entre diferentes estados nordestinos.
As incursões pelo sertão em busca de Lampião
A expedição não foi uma simples viagem para encontrar um personagem famoso. Benjamin percorreu durante cerca de 18 meses áreas de Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco e Sergipe, utilizando informações obtidas com moradores, comerciantes e pessoas ligadas ao próprio cangaço. Sua caderneta registra deslocamentos sucessivos por localidades como Missão Velha, Brejo Santo, Jati, Belmonte, Serra Talhada, Custódia, Arcoverde, Buíque, Mata Grande e Maravilha. Em Pau Ferro, no município de Águas Belas, estabeleceu uma base para suas operações.
O primeiro encontro documentado dessa fase ocorreu em 1936. O historiador Frederico Pernambucano de Mello estima que Benjamin tenha chegado ao grupo de Lampião no fim de março, na região da ribeira do Capiá, em Alagoas. Ele teria sido conduzido pelos cangaceiros Juriti e Marreca e permaneceu cinco dias com o grupo central comandado por Lampião. Segundo o relato preservado pela pesquisa da Brasiliana Fotográfica, houve uma aproximação progressiva entre fotógrafo e cangaceiros, até que Benjamin pudesse trabalhar com a câmera diante deles.
Em meados de julho de 1936, Benjamin voltou a encontrar Lampião e permaneceu aproximadamente três dias com o bando. Nesse período, a relação entre fotógrafo e fotografados já era diferente da simples tentativa de obter imagens clandestinas. Lampião passou a colaborar ativamente com a produção, permitindo que ele registrasse cenas de seu cotidiano, dos demais cangaceiros e de Maria Bonita. O resultado foi um conjunto excepcional de fotografias e aproximadamente quinze minutos de película que sobreviveram em diferentes versões e remontagens.
O que Benjamin conseguiu registrar?
As imagens não mostram somente homens armados posando diante da câmera. Benjamin registrou Lampião costurando, lendo, escrevendo, rezando, acariciando seus cães e recebendo cuidados de Maria Bonita, enquanto outros integrantes do grupo aparecem em momentos de descontração ou simulando combates. O Instituto Moreira Salles observa que os cangaceiros interagiam com a câmera e pareciam compreender a dimensão performática daqueles registros. As fotografias, portanto, documentam tanto a aparência do bando quanto a maneira como Lampião desejava apresentar a si próprio.
Essa dimensão é especialmente relevante porque Lampião já utilizava a imprensa e a fotografia para construir sua imagem pública. Os registros de Benjamin mostram roupas ornamentadas, armas, chapéus, acessórios e cenas cuidadosamente compostas. Em janeiro de 1937, Benjamin também divulgou informações sobre Maria Bonita e afirmou que ela havia escolhido acompanhar Lampião voluntariamente, contrariando versões que atribuíam sua entrada no cangaço a um sequestro. As fotografias passaram a circular em jornais e revistas, ampliando ainda mais a presença visual do casal e do bando no imaginário brasileiro.
O filme de Benjamin Abrahão e a censura do Estado Novo
O trabalho cinematográfico recebeu o título Lampião, o Rei do Cangaço e foi produzido com o apoio da Aba Film. Em 1937, Benjamin tentou conseguir autorização para exibi-lo publicamente, mas o material chamou a atenção das autoridades. O Departamento Nacional de Propaganda determinou a apreensão do filme e de suas cópias, alegando que sua exibição seria prejudicial à imagem do país. O episódio ocorreu em um ambiente político que se tornaria ainda mais repressivo depois da instalação do Estado Novo, em novembro daquele ano.
A existência do filme provocou uma situação paradoxal. As fotografias apresentavam Lampião como uma figura que podia ser vista, identificada e acompanhada, enquanto as autoridades continuavam incapazes de eliminá-lo. A imprensa chegou a questionar publicamente como um cangaceiro tão conhecido podia ser fotografado e filmado e continuar livre pelo sertão. Em fevereiro de 1937, Lampião chegou a escrever um bilhete confirmando que Benjamin havia sido o responsável pelos registros e afirmando que ninguém antes conseguira filmá-lo daquela maneira.
Parte fundamental desse material desapareceu ou se deteriorou depois da apreensão. Fragmentos foram recuperados posteriormente e utilizados em obras cinematográficas sobre o cangaço. O Instituto Moreira Salles conserva registros fotográficos de Benjamin, enquanto a Cinemateca Brasileira participou de processos de restauração de materiais cinematográficos sobreviventes. As imagens também chegaram ao público contemporâneo por meio de documentários e do filme Baile Perfumado, dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, que incorporou registros originais de Benjamin à narrativa ficcional.
A morte de Benjamin Abrahão e as suspeitas
Em 1937, Benjamin continuou trabalhando no sertão e também passou a fotografar e filmar vaquejadas. Em Pau Ferro, comercializou fotografias de cangaceiros produzidas pela Aba Film, enquanto mantinha relações comerciais com pessoas ligadas ao ambiente político e econômico regional. Há um detalhe especialmente significativo nesse período: uma fotografia registrou o coronel Audálio Tenório, apontado como amigo de Lampião, caminhando de braços dados com o major Lucena Maranhão, conhecido perseguidor do cangaceiro. O registro evidencia a complexidade das relações entre chefes locais, policiais e pessoas próximas ao cangaço.
No início de maio de 1938, Benjamin retornou a Pau Ferro enfrentando dificuldades financeiras. Segundo o relato reunido pela Brasiliana Fotográfica, ele teria confidenciado ao amigo Antônio Paranhos que possuía informações obtidas durante seu convívio com Lampião e cogitava “vender seu silêncio”. Essa declaração aparece em uma reconstrução baseada em fontes posteriores e deve ser tratada com cautela, porque não constitui, por si só, prova de que o conhecimento sobre o cangaço tenha motivado seu assassinato.
A morte ocorreu em maio de 1938, em Águas Belas, área que hoje corresponde ao município de Itaíba, em Pernambuco. A cronologia da Brasiliana Fotográfica, baseada na imprensa da época, registra o assassinato em 7 de maio: Benjamin teria saído de um bar em direção à pensão onde estava hospedado quando as ruas ficaram às escuras e foi atacado com 42 facadas. Zé da Rita, marido de Alaíde Rodrigues de Siqueira, foi apontado como assassino confesso, numa versão associada a um possível crime passional.
A explicação, porém, permaneceu cercada de dúvidas. A fonte registra que Zé da Rita era franzino e tinha paralisia da cintura para baixo, circunstância que levantou questionamentos sobre sua capacidade de dominar Benjamin, descrito como um homem corpulento. Por isso, além da hipótese de crime passional, surgiu a possibilidade de que Benjamin tenha sido vítima de uma queima de arquivo relacionada às informações que possuía sobre relações entre autoridades e Lampião. Não existe, contudo, comprovação histórica suficiente para transformar essa segunda hipótese em explicação definitiva para o crime.
O assassinato ocorreu apenas dois meses antes da morte de Lampião. Em 28 de julho de 1938, uma força volante comandada pelo tenente João Bezerra da Silva atacou o bando na Grota do Angico, em Sergipe, matando Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros. As cabeças dos mortos foram levadas para exposição pública e fotografadas, enquanto o trabalho de Benjamin, produzido quando os personagens ainda estavam vivos, permanecia como o principal conjunto de imagens em movimento conhecido de Lampião. Essa proximidade cronológica ajuda a explicar a importância documental de seu acervo: Benjamin morreu sem presenciar o fim do homem que havia decidido acompanhar pelas caatingas.
Uma das características mais singulares da trajetória de Benjamin Abrahão Botto é que ele não se limitou a fotografar Lampião: também produziu imagens de si próprio durante as incursões, registrou outros grupos de cangaceiros e documentou atividades sertanejas que nada tinham a ver diretamente com o combate. Entre esses trabalhos está o filme de uma vaquejada realizada em Pau Ferro em novembro de 1937, considerada pela cronologia da Brasiliana Fotográfica a primeira vaquejada filmada em Pernambuco. Assim, o legado de Benjamin ultrapassa o retrato de Lampião e constitui um raro testemunho visual da vida sertaneja brasileira na década de 1930.