Os sumérios criaram o sistema de escrita mais antigo conhecido pela historiografia atual, chamado escrita cuneiforme, desenvolvido na cidade de Uruk, no sul da Mesopotâmia, região que corresponde ao atual Iraque. Os primeiros registros datam de aproximadamente 3200 a.C. e foram encontrados em tabuinhas de argila usadas para controle administrativo de templos. Esses documentos não formavam frases completas, mas listas de bens como grãos, tecidos e animais, associadas a numerais e a sinais que representavam objetos ou pessoa
A necessidade que originou a escrita estava ligada à complexidade econômica de Uruk, cidade que chegou a reunir dezenas de milhares de habitantes no quarto milênio antes de Cristo. Os templos administravam terras, rebanhos e mão de obra em escala que a memória oral já não conseguia controlar com segurança. Arqueólogos alemães escavaram, entre o final do século XIX e o início do XX, milhares dessas tabuinhas no sítio de Uruk, hoje reunidas principalmente em museus da Alemanha e do Iraque.
Antes da escrita plena, os povos da Mesopotâmia já usavam pequenos objetos de argila, conhecidos como fichas ou “tokens”, para contar bens agrícolas. A arqueóloga Denise Schmandt-Besserat propôs que esse sistema de fichas teria evoluído gradualmente até se transformar em sinais gravados na superfície da argila, hipótese hoje amplamente discutida, mas não unânime entre os especialistas em escrita antiga. Outros pesquisadores, como o assiriólogo francês Jean-Jacques Glassner, defendem que a passagem dos tokens para a escrita cuneiforme foi menos linear do que essa teoria sugere.
A invenção do sistema cuneiforme na Suméria
Os primeiros sinais sumérios eram pictogramas, ou seja, desenhos simplificados que representavam diretamente o objeto nomeado: uma cabeça de boi para “boi”, uma espiga para “cevada”. Esse estágio inicial, chamado de escrita proto-cuneiforme, permitia registrar apenas substantivos e quantidades, sem verbos ou conectivos gramaticais. Por isso, os textos desse período têm caráter contábil e não narrativo, servindo essencialmente à administração dos templos e palácios.
Por volta de 2900 a.C., os escribas passaram a girar os sinais noventa graus e a simplificá-los em traços retos, resultado da pressão de um instrumento pontiagudo sobre a argila mole. Esse processo deu origem à forma cuneiforme propriamente dita, cujo nome vem do latim cuneus, que significa “cunha”, em referência ao formato triangular deixado por cada marca. A partir desse momento, o sistema deixou de imitar visualmente os objetos e tornou-se cada vez mais abstrato e convencional.
Dos pictogramas aos sinais fonéticos
A mudança decisiva ocorreu quando os escribas sumérios passaram a usar sinais não apenas pelo significado do objeto que representavam, mas pelo som da palavra correspondente, mecanismo conhecido como princípio do rébus. Assim, um sinal que originalmente significava “seta” (em sumério, ti) podia ser reaproveitado para escrever a sílaba ti dentro de outra palavra, independentemente do sentido literal. Esse recurso permitiu representar nomes próprios, verbos e partículas gramaticais, elementos que os pictogramas isolados não conseguiam expressar.
Com o tempo, a escrita sumeriana passou a combinar três tipos de sinais: logogramas, que representam uma palavra inteira; sinais silábicos, que representam sons; e determinativos, sinais mudos colocados antes ou depois de uma palavra para indicar sua categoria, como divindade, cidade ou material. Esse sistema misto, parcialmente logográfico e parcialmente fonético, tornou o cuneiforme complexo, com centenas de sinais distintos, mas também flexível o suficiente para registrar leis, mitos, cartas e tratados diplomáticos séculos depois de sua criação.
O material e as ferramentas da escrita cuneiforme
Os escribas gravavam os sinais em tabuinhas de argila fresca, material abundante nas margens dos rios Tigre e Eufrates e de baixo custo em comparação a outros suportes da Antiguidade. O instrumento usado era um estilete feito de caniço, cortado em uma das pontas para formar uma face triangular que, pressionada obliquamente contra a argila, produzia o traço em forma de cunha característico do cuneiforme.
Depois de escritas, as tabuinhas podiam secar ao sol, para documentos de uso corrente e descartável, ou ser cozidas em fornos, técnica reservada a textos de maior importância, como códigos legais e arquivos reais. Essa cocção conferiu durabilidade extraordinária ao material: diferentemente do papiro egípcio, que se deteriora com facilidade, a argila cozida resiste ao tempo, ao fogo e à umidade, o que explica por que centenas de milhares de tabuinhas cuneiformes sobreviveram até hoje em escavações no Iraque, na Síria e na Turquia.
Um exemplo célebre desse acervo é a biblioteca do rei assírio Assurbanípal, em Nínive, reunida no século VII a.C. e descoberta pelo arqueólogo britânico Austen Henry Layard em meados do século XIX. Essa coleção reúne milhares de tabuinhas com textos literários, científicos e administrativos, incluindo cópias da Epopeia de Gilgamesh, uma das obras narrativas mais antigas já registradas por escrito.
A adaptação da escrita cuneiforme por outros povos
A escrita cuneiforme não permaneceu restrita à língua sumeriana. Por volta de 2350 a.C., o Império Acádio, fundado por Sargon de Acade na região central da Mesopotâmia, adotou o mesmo sistema de sinais para registrar o acadiano, língua semítica estruturalmente diferente do sumério. Essa adaptação exigiu ajustes no uso dos sinais fonéticos, já que os sons do acadiano não coincidiam exatamente com os do sumério original.
Depois dos acádios, babilônios e assírios mantiveram o cuneiforme como escrita oficial durante mais de dois mil anos, aplicando-o a documentos como o Código de Hamurábi, gravado em uma estela de diorito no século XVIII a.C. Outros povos desenvolveram variantes próprias do sistema: os elamitas, no sudoeste do atual Irã, criaram uma versão simplificada; os hititas, na Anatólia, adaptaram o cuneiforme a uma língua indo-europeia; e os persas aquemênidas, sob Dario I, no final do século VI a.C., criaram uma forma semialfabética com cerca de trinta e seis sinais, muito mais simples que o cuneiforme sumério original.
Essa versão persa foi decisiva para a decifração moderna do sistema. A Inscrição de Behistun, mandada gravar por Dario I em um penhasco do atual Irã, repete o mesmo texto em persa antigo, elamita e babilônico, funcionando como uma espécie de Pedra de Roseta da Mesopotâmia. O oficial britânico Henry Rawlinson copiou e estudou essa inscrição entre as décadas de 1830 e 1840, permitindo que estudiosos europeus decifrassem definitivamente a escrita cuneiforme no século XIX, depois de quase dois mil anos sem uso.