Os seres humanos provavelmente começaram a cozinhar muito antes do surgimento das primeiras civilizações. O problema é determinar exatamente quando isso aconteceu. As evidências arqueológicas permitem estabelecer diferentes marcos, mas não apontam para uma única data. Dependendo do critério adotado, o uso do fogo pode remontar a mais de 1 milhão de anos, enquanto as evidências mais convincentes de preparo intencional e recorrente de alimentos são bem mais recentes.
O sítio de Gesher Benot Ya’aqov, em Israel, reúne uma das evidências mais antigas e bem documentadas de controle do fogo por hominíneos. Os vestígios encontrados no local indicam que grupos humanos utilizavam o fogo há aproximadamente 790 mil anos. Mais tarde, outros sítios passaram a revelar sinais de uma utilização mais sistemática das fogueiras, associada ao preparo de alimentos.
Há, entretanto, indícios ainda mais antigos. Na Caverna de Wonderwerk, na África do Sul, camadas contendo cinzas e outros vestígios associados a ocupações de Homo erectus foram datadas em cerca de 1 milhão de anos. A interpretação desses restos continua sendo discutida, principalmente porque não é simples determinar se o fogo foi produzido e mantido deliberadamente ou se resultou do aproveitamento de incêndios naturais.
O antropólogo Richard Wrangham, da Universidade Harvard, propôs uma data ainda mais antiga. Em Catching Fire: How Cooking Made Us Human (2009), ele defende que o cozimento sistemático poderia ter começado há aproximadamente 1,8 milhão de anos, durante a evolução do Homo erectus. Essa hipótese, porém, não representa um consenso arqueológico. A dificuldade está justamente em distinguir a simples utilização do fogo de um comportamento regular de cozinhar.
Por isso, não existe um ano ou período único que possa ser apontado como o momento em que a humanidade “inventou” o cozimento. O mais provável é que essa prática tenha surgido gradualmente, em diferentes populações humanas, à medida que o controle do fogo se tornou mais eficiente e passou a fazer parte da rotina.
As evidências mais antigas do uso do fogo para cozinhar
Existe uma diferença importante entre controlar o fogo e utilizá-lo para preparar alimentos. Uma fogueira pode fornecer calor, luz ou proteção contra animais sem que necessariamente tenha sido usada para cozinhar. Para identificar o preparo de alimentos, os arqueólogos procuram sinais mais específicos em ossos, sementes, ferramentas e sedimentos associados às fogueiras.
Gesher Benot Ya’aqov oferece alguns dos indícios mais relevantes. O sítio fica próximo ao antigo Lago Hula, no norte de Israel, e foi estudado por uma equipe liderada pela arqueóloga Naama Goren-Inbar, da Universidade Hebraica de Jerusalém. As escavações revelaram sementes carbonizadas, pedras queimadas, ferramentas de sílex e restos de animais distribuídos em áreas que indicam diferentes pontos de atividade.
A concentração desses materiais sugere que o fogo era utilizado de maneira controlada e recorrente. Não se trata apenas de uma camada de cinzas deixada por um incêndio natural, mas de um conjunto de evidências que aponta para atividades realizadas deliberadamente ao redor das fogueiras.
O peixe cozido de Gesher Benot Ya’aqov
Uma das descobertas mais importantes veio de um estudo publicado em 2022 na revista Nature Ecology & Evolution. Os pesquisadores analisaram mais de 40 mil restos de peixes encontrados em Gesher Benot Ya’aqov e identificaram alterações na estrutura dos dentes dos peixes compatíveis com exposição a temperaturas controladas.
A análise indicou que os animais provavelmente foram submetidos a temperaturas inferiores a 500 °C, condição compatível com o cozimento e diferente da exposição direta a chamas muito intensas. Os pesquisadores estimaram que os peixes foram preparados há aproximadamente 780 mil anos.
O achado é particularmente importante porque fornece uma evidência mais direta do preparo intencional de alimentos. Os peixes provavelmente pertenciam a espécies de água doce que viviam no antigo Lago Hula. Antes dessa descoberta, os registros mais seguros de cozimento deliberado eram consideravelmente mais recentes, envolvendo ocupações de Homo sapiens e neandertais.
Como cozinhar pode ter influenciado a evolução humana?
O cozimento não apenas modifica o sabor dos alimentos. O calor também altera sua estrutura física e química, facilitando a digestão. O cozimento amolece fibras vegetais, modifica amidos e desnatura proteínas, tornando parte dos nutrientes mais acessível ao organismo.
Essa transformação levou Richard Wrangham a propor uma hipótese conhecida por relacionar o cozimento às mudanças anatômicas ocorridas durante a evolução humana. Segundo o pesquisador, alimentos cozidos fornecem mais energia disponível e exigem menos esforço para serem mastigados e digeridos.
Nesse cenário, a necessidade de um sistema digestivo tão grande quanto o de outros primatas poderia ter diminuído. A energia economizada poderia, por sua vez, ser utilizada em outras funções metabólicas. Entre elas estaria o cérebro, um órgão que apresenta elevado consumo energético e representa cerca de 20% do gasto energético de um adulto humano em repouso.
Wrangham descreve o fogo como uma espécie de “estômago externo”: parte do trabalho que antes precisaria ocorrer dentro do organismo passa a ser realizado fora dele, durante o preparo dos alimentos.
A hipótese é influente, mas não encerra a discussão. Outros pesquisadores questionam a ideia de que o cozimento, sozinho, tenha sido responsável pelas mudanças no corpo humano. Um estudo publicado em 2016 na revista Nature, conduzido por Katherine Zink e Daniel Lieberman, da Universidade Harvard, mostrou que técnicas mecânicas de processamento também poderiam reduzir significativamente o esforço necessário para consumir determinados alimentos.
Cortar carne com ferramentas de pedra e amassar alimentos, por exemplo, diminui a quantidade de mastigação necessária mesmo quando não há cozimento. Para os pesquisadores, essas práticas podem ter desempenhado um papel importante antes que o uso regular do fogo para cozinhar se tornasse comum.
A evolução da alimentação humana, portanto, provavelmente resultou de uma combinação de fatores. O fogo foi importante, mas não necessariamente atuou sozinho.
Da fogueira aos primeiros utensílios de cozinha
Durante grande parte da pré-história, assar alimentos diretamente sobre brasas ou pedras aquecidas provavelmente foi uma das formas mais simples de cozinhar. A técnica dispensava recipientes e exigia poucos recursos além do próprio fogo.
A situação mudou com o desenvolvimento de recipientes resistentes ao calor. A cerâmica permitiu aquecer alimentos dentro da água e tornou possível preparar ingredientes que não poderiam ser facilmente consumidos crus ou assados diretamente.
Alguns dos exemplos mais antigos de cerâmica foram encontrados na Caverna de Xianrendong, na China. Os fragmentos foram datados entre aproximadamente 20 mil e 19 mil anos e foram apresentados em um estudo publicado em 2012 na revista Science. A descoberta é especialmente relevante porque antecede em milhares de anos o desenvolvimento da agricultura na região.
Com recipientes capazes de suportar o calor, técnicas como a fervura passaram a ampliar as possibilidades alimentares. Grãos, sementes e determinados tubérculos podiam ser processados com água e calor, tornando-se mais macios e fáceis de consumir.
Milhares de anos depois, o surgimento da agricultura no Oriente Médio, há cerca de 10 mil anos, provocou novas mudanças. Comunidades sedentárias passaram a cultivar e armazenar grandes quantidades de cereais, construir estruturas permanentes e utilizar fornos de barro. O preparo dos alimentos tornou-se, assim, uma atividade cada vez mais integrada à vida doméstica.
Um dos exemplos mais impressionantes dessa longa relação com o fogo está na Caverna de Qesem, em Israel. Escavações realizadas por pesquisadores da Universidade de Tel Aviv encontraram uma grande lareira central que teria sido utilizada repetidamente durante dezenas de milhares de anos.
No mesmo local, o acúmulo de cinzas chegou a formar uma espessa camada, revelando a frequência com que o fogo era mantido e reutilizado. Mais do que uma simples fonte de calor, a fogueira passou a funcionar como ponto de encontro, preparo de alimentos e organização das atividades do grupo.
A história do cozimento, portanto, não começou com uma única descoberta. Ela foi construída lentamente, à medida que diferentes grupos humanos aprenderam a controlar o fogo, modificar os alimentos e transformar a alimentação em uma prática cotidiana. Essa mudança alterou não apenas o que os seres humanos comiam, mas também a maneira como viviam, se organizavam e interagiam ao redor do fogo.