Oropouche: causas, sintomas e tratamento

A febre Oropouche voltou a preocupar autoridades sanitárias brasileiras depois do surto registrado a partir de 2024

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A febre Oropouche é uma doença viral transmitida pela picada de um mosquito da espécie Culicoides paraensis, conhecido no Brasil como maruim ou mosquito-pólvora. O agente causador é o vírus Oropouche (OROV), do gênero Orthobunyavirus, identificado pela primeira vez em 1955 na vila de Oropouche, em Trinidad e Tobago. Desde 2024 o Brasil concentra o maior número de casos confirmados no mundo, segundo dados do Ministério da Saúde, com registros em 21 estados e maior incidência no Amazonas e em Rondônia. A doença provoca febre, dores no corpo e sintomas semelhantes aos da dengue, sem vacina ou tratamento antiviral específico até o momento.

O nome da doença vem diretamente do local onde o vírus foi isolado pela primeira vez, às margens do rio Oropouche, em Trinidad e Tobago. A partir da década de 1960, casos humanos passaram a ser registrados também na região amazônica brasileira e no Peru, países que concentraram a maior parte dos surtos até o ano 2000. Nas duas décadas seguintes, casos esporádicos foram confirmados em outros países da América do Sul e Central, incluindo Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, Haiti, Panamá e a Guiana Francesa. Essa dispersão geográfica gradual ajuda a explicar por que a doença permaneceu pouco conhecida fora de áreas tropicais por várias décadas.

O cenário mudou de forma expressiva entre 2023 e 2024, quando pesquisadores identificaram uma nova linhagem do vírus circulando na região Norte do Brasil. Essa variante resultou da recombinação genética entre cepas já presentes nos estados do Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia e vírus provenientes de países vizinhos como Colômbia, Peru e Equador. Estudos publicados em plataformas científicas como o medRxiv indicam que essa linhagem híbrida surgiu por volta de 2013 e 2014, mas só provocou um surto de grandes proporções a partir de 2022. A combinação genética favoreceu a transmissão em áreas onde a doença antes era rara, o que ampliou o alcance geográfico da febre Oropouche no território brasileiro.

Causas e transmissão do vírus Oropouche

O vírus Oropouche pertence ao sorogrupo Simbu e possui genoma de RNA de fita simples, dividido em três segmentos chamados L, M e S. A transmissão para humanos ocorre principalmente pela picada da fêmea do mosquito Culicoides paraensis, um inseto pequeno que se prolifera em áreas com acúmulo de matéria orgânica, como restos de frutas e vegetação em decomposição. Em menor escala, mosquitos do gênero Culex também já foram associados à disseminação do vírus em ambientes urbanos. Não há registro de transmissão do vírus pelo contato direto entre pessoas em circunstâncias comuns do dia a dia.

A nova linhagem viral e a epidemia de 2024 no Brasil

Pesquisadores identificaram quatro clados distintos da linhagem reorganizada do vírus até o início de 2024, denominados AMACRO-II, AM-I, AM-II e AM-III. Até 4 de julho daquele ano, o Brasil já havia confirmado 6.976 casos de febre Oropouche, dos quais 21,6% ocorreram fora da região amazônica, conforme dados citados em estudo publicado no medRxiv em 2024. O vírus chegou a estados do Nordeste como Pernambuco e Ceará por meio de introduções distintas originadas no Amazonas, de acordo com pesquisas conduzidas por Gräf e colaboradores e por Lima e colaboradores, ambas de 2024. Em 2024, dois óbitos associados à febre Oropouche foram registrados no interior da Bahia, os primeiros confirmados no mundo relacionados à doença, além da investigação de casos suspeitos de transmissão vertical do vírus da mãe para o feto durante a gestação.

Sintomas da febre Oropouche

Os sintomas costumam aparecer entre três e oito dias após a picada do mosquito infectado e incluem febre de início repentino, dor de cabeça intensa, dores musculares e articulares, além de náusea e mal-estar generalizado. O quadro clínico se assemelha ao da dengue e ao da chikungunya, o que dificulta o diagnóstico apenas com base nos sinais apresentados pelo paciente. Por esse motivo, profissionais de saúde costumam solicitar primeiro exames para dengue e, caso o resultado seja negativo, investigam a presença do vírus Oropouche por meio de testes laboratoriais específicos, como RT-qPCR e ELISA. Na maioria dos casos, os sintomas duram de dois a sete dias e desaparecem sem deixar sequelas.

Parte dos pacientes pode apresentar recidiva dos sintomas entre uma e duas semanas após a manifestação inicial, com retorno da febre, da dor de cabeça e das dores musculares. Complicações neurológicas, como meningite asséptica e meningoencefalite, são raras, mas podem ocorrer, principalmente em casos mais graves. Gestantes com sintomas compatíveis com a febre Oropouche precisam de acompanhamento médico contínuo ao longo do pré-natal, já que pesquisadores brasileiros investigam a relação entre a infecção durante a gravidez e óbitos fetais. Sangramentos leves na pele também foram relatados em alguns pacientes, embora sejam pouco frequentes.

Existe vacina? Qual o tratamento?

Não existe vacina aprovada contra o vírus Oropouche até o momento, segundo informações reunidas pela Agência Gov e por hospitais de referência em doenças infecciosas no Brasil. Também não há medicamento antiviral específico para tratar a infecção, o que torna a abordagem terapêutica essencialmente paliativa. O tratamento se concentra no alívio dos sintomas, com uso de analgésicos e antitérmicos para controlar dor e febre, hidratação adequada e repouso, sempre com acompanhamento médico. Pacientes não devem se automedicar, especialmente com anti-inflamatórios, já que o quadro inicial pode ser confundido com o da dengue, doença em que certos medicamentos aumentam o risco de sangramento.

A prevenção da febre Oropouche depende diretamente do controle do mosquito transmissor, uma vez que não existe imunização disponível. Recomenda-se o uso de repelentes na pele exposta, roupas de manga comprida em áreas de risco, telas em portas e janelas e a eliminação de recipientes com acúmulo de matéria orgânica que favoreçam a proliferação do Culicoides paraensis. Em janeiro de 2026, a Organização Mundial da Saúde apresentou uma proposta para acelerar o desenvolvimento de ferramentas de prevenção e controle contra o vírus, o que inclui pesquisas voltadas à criação de uma vacina eficaz. Até a publicação deste texto, no entanto, essas ferramentas permanecem em fase de estudo, sem previsão oficial de disponibilização.

A vigilância epidemiológica da febre Oropouche no Brasil segue baseada na notificação obrigatória dos casos às secretarias municipais de saúde, que adotam medidas de controle do vetor conforme a legislação sanitária vigente. Estudos genômicos conduzidos em países como a Bolívia, em 2024, ajudaram a mapear a origem e a rota de transmissão local do vírus fora do território brasileiro, o que reforça o caráter regional da circulação do OROV na América do Sul. Uma curiosidade histórica pouco conhecida é que o vírus Oropouche recebeu esse nome em homenagem ao rio Oropouche, em Trinidad e Tobago, local onde amostras do sangue de um trabalhador florestal doente permitiram aos pesquisadores isolar o agente causador da doença pela primeira vez, em 1955, quase sete décadas antes de o vírus se tornar protagonista do maior surto já registrado em território brasileiro.


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