Jesus de Nazaré foi crucificado ao lado de outros dois homens em Jerusalém, por volta do ano 30 ou 33 d.C., durante o governo do prefeito romano Pôncio Pilatos na Judeia, cargo que ele ocupou entre 26 e 36 d.C. O episódio é narrado nos quatro evangelhos canônicos do Novo Testamento: Mateus, Marcos, Lucas e João. Nenhum desses textos revela o nome completo dos dois homens executados junto a Jesus, e apenas o Evangelho de Lucas registra um diálogo entre um deles e Jesus na cruz. A execução ocorreu no monte Gólgota, também chamado Calvário, local situado fora dos muros da Jerusalém do século I.
Os evangelhos de Mateus e Marcos descrevem os dois homens crucificados ao lado de Jesus com o termo grego “lestai”, traduzido tradicionalmente como “ladrões”, mas que os historiadores associam com mais precisão a bandidos armados ou insurgentes contra a ocupação romana. Esse mesmo termo é usado por Flávio Josefo em outras passagens de sua obra para descrever grupos rebeldes judaicos que atuavam contra Roma na Judeia do século I. Já o Evangelho de Lucas emprega a palavra grega “kakourgoi”, que significa “malfeitores” ou “criminosos”, termo mais genérico que não indica necessariamente atividade insurrecional. O Evangelho de João, por sua vez, apenas menciona “dois outros” homens, sem qualificar a natureza do crime cometido por eles.
Segundo o relato de Lucas, capítulo 23, um dos dois homens zombou de Jesus na cruz, enquanto o outro o repreendeu, reconhecendo que ambos mereciam a pena aplicada, ao contrário de Jesus. Esse segundo homem pediu que Jesus se lembrasse dele quando chegasse ao reino de Deus, recebendo a resposta de que estaria com Jesus no paraíso naquele mesmo dia. Esse episódio é a origem da tradição cristã do “bom ladrão”, personagem sem nome nos textos canônicos, mas identificado como Dimas em textos apócrifos posteriores. A cena de Lucas não aparece nos evangelhos de Mateus e Marcos, que descrevem apenas insultos vindos dos dois condenados contra Jesus.
A crucificação como punição no Império Romano
A crucificação era um método de execução amplamente utilizado pelo Império Romano, reservado principalmente a escravos, piratas e rebeldes políticos, raramente aplicado a cidadãos romanos. A pena servia como instrumento de dissuasão pública, já que os corpos permaneciam expostos em locais visíveis, muitas vezes à beira de estradas, como forma de advertência contra futuras revoltas. O historiador romano Apiano relata que, após a derrota da revolta de escravos liderada por Espártaco em 71 a.C., cerca de seis mil rebeldes foram crucificados ao longo da Via Ápia, entre Cápua e Roma. Esse tipo de execução em massa demonstra que a punição não se limitava a criminosos comuns, mas funcionava como ferramenta política contra ameaças à ordem estabelecida pelo Estado romano.
Na Judeia romana do século I, a crucificação era aplicada com frequência a insurgentes que se opunham à ocupação de Roma, categoria à qual pertencem tanto Barrabás, mencionado nos evangelhos como líder envolvido em uma revolta com homicídio, quanto possivelmente os dois homens executados ao lado de Jesus. O prefeito Pôncio Pilatos possuía autoridade para ordenar execuções na província, e fontes romanas e judaicas registram diversos episódios de repressão violenta durante seu governo. Essa prática ajuda a explicar por que os evangelhos de Mateus e Marcos descrevem os companheiros de execução de Jesus com o termo associado a bandidos ou insurgentes, e não apenas a ladrões comuns. A escolha de crucificar Jesus ao lado de dois homens dessa categoria também reforça a acusação romana contra ele, apresentada por Pilatos, segundo os evangelhos, como sedição contra o império.
Os relatos dos evangelhos sobre os companheiros de Jesus na cruz
Os textos evangélicos não fornecem informações biográficas sobre os dois homens além de sua condenação e comportamento durante a execução. Nenhuma fonte histórica independente dos evangelhos identifica seus nomes ou confirma detalhes sobre os crimes que cometeram. A tradição cristã posterior atribuiu nomes a essas figuras, mas essa informação não consta nos quatro evangelhos canônicos nem em fontes judaicas ou romanas contemporâneas ao episódio.
A promessa de Jesus ao homem arrependido
Os nomes Dimas, para o homem arrependido, e Gestas, para o que zombou de Jesus, aparecem pela primeira vez no Evangelho de Nicodemos, também chamado Atos de Pilatos, texto apócrifo composto entre os séculos IV e V, portanto muito posterior aos evangelhos canônicos. Por não integrar o cânon bíblico aceito pelas principais tradições cristãs, esse texto é tratado por historiadores como registro de tradição popular, sem valor histórico equivalente aos evangelhos do Novo Testamento. A promessa registrada em Lucas 23:43, de que o homem arrependido estaria com Jesus no paraíso naquele dia, tornou-se um dos versículos mais comentados da tradição cristã sobre perdão e salvação. Teólogos de diferentes correntes discutem até hoje o significado exato da palavra “paraíso” nesse contexto, sem consenso definitivo entre os estudiosos.
O que Flávio Josefo escreveu sobre a morte de Jesus de Nazaré?
Flávio Josefo foi um historiador judeu nascido por volta do ano 37 d.C., que serviu como comandante militar na Judeia antes de se tornar cronista sob proteção do Império Romano. Sua obra mais extensa, “Antiguidades Judaicas”, concluída por volta de 93 ou 94 d.C., contém a referência não cristã mais antiga conhecida sobre Jesus de Nazaré, no Livro 18. Essa passagem, conhecida como Testimonium Flavianum, afirma que Jesus era um homem sábio, realizava obras consideradas notáveis e foi condenado à cruz por Pilatos após acusação de líderes judaicos da época. O texto também menciona que os seguidores de Jesus relataram tê-lo visto vivo três dias após a execução.
A autenticidade integral do Testimonium Flavianum é questionada por historiadores desde o século XVI, já que o texto contém elementos que soam como afirmações de fé cristã, incompatíveis com o que se sabe sobre as convicções religiosas judaicas de Josefo. Desde o final do século XX, a maioria dos pesquisadores especializados em Josefo considera que a passagem contém um núcleo autêntico, escrito pelo próprio historiador, posteriormente ampliado por copistas cristãos com afirmações teológicas. Essa avaliação apoia-se em uma versão árabe do texto, preservada pelo cronista cristão Agápio de Hierápolis no século X e identificada pelo historiador israelense Shlomo Pines em 1971, que apresenta uma redação mais neutra sobre a identidade messiânica de Jesus. Josefo voltou a mencionar Jesus de forma mais breve no Livro 20 de “Antiguidades Judaicas”, ao registrar a morte de “Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo”, referência considerada autêntica por praticamente todos os historiadores que estudam o texto.
Uma curiosidade histórica pouco difundida envolve justamente essa segunda menção de Josefo: por não conter os elementos teológicos controversos do Testimonium Flavianum do Livro 18, a passagem sobre Tiago, irmão de Jesus, no Livro 20, é considerada pelos estudiosos modernos evidência ainda mais sólida da existência histórica de Jesus de Nazaré do que o trecho mais citado e debatido sobre sua crucificação.