Subterrâneo e formado durante milhões de anos, o petróleo passou de substância usada em práticas antigas a uma das matérias-primas mais importantes da economia moderna. Sua exploração industrial começou no século XIX, ganhou escala nos Estados Unidos e chegou ao Brasil por meio de uma trajetória marcada por disputas políticas, descobertas técnicas e pela criação da Petrobras.
O uso humano de materiais betuminosos é muito anterior à indústria petrolífera. Povos da Mesopotâmia já empregavam exsudações naturais de betume na construção e na impermeabilização, enquanto outras sociedades utilizaram substâncias oleosas que afloravam espontaneamente do solo. Esses registros mostram que o petróleo e seus derivados naturais eram conhecidos há milênios, mas ninguém ainda dominava a tecnologia necessária para extraí-los em grande escala.
A transformação decisiva ocorreu no século XIX, quando a industrialização criou uma demanda crescente por iluminação, lubrificantes e combustíveis. A perfuração de poços permitiu obter petróleo em quantidades muito maiores do que aquelas encontradas em fontes naturais. Em 1859, nos Estados Unidos, o poço perfurado por Edwin Drake em Titusville, na Pensilvânia, tornou-se um marco da exploração comercial moderna, embora não tenha sido a primeira vez que petróleo foi extraído do subsolo.
Como o petróleo entrou na era industrial
A importância de Drake está ligada ao método empregado. Sob orientação técnica de William A. Smith, conhecido como “Uncle Billy”, sua equipe perfurou o terreno com uma técnica de percussão e atingiu petróleo a cerca de 21 metros de profundidade em 27 de agosto de 1859. O poço produzia inicialmente cerca de 20 barris por dia, quantidade modesta diante dos campos que seriam explorados posteriormente, mas suficiente para demonstrar que o petróleo poderia ser obtido por perfuração sistemática.
A descoberta ocorreu em um contexto de busca por uma fonte mais eficiente de iluminação. O querosene, obtido pela destilação do petróleo, começou a substituir parte do óleo de baleia utilizado em lamparinas. A expansão das cidades e da atividade industrial aumentou o mercado para esses produtos, transformando o petróleo em uma mercadoria de interesse econômico. A história da indústria petrolífera, portanto, começou antes da popularização dos automóveis: inicialmente, a iluminação foi uma das principais razões para sua expansão.
A destilação também revelou uma característica que definiria o futuro do petróleo: ele não era uma substância útil para apenas uma finalidade. O refino separava diferentes frações conforme suas propriedades físicas e permitia produzir querosene, nafta, gasolina, óleos lubrificantes e outros materiais. Com o avanço da química e das técnicas industriais, pesquisadores descobriram novas maneiras de transformar essas frações em produtos com aplicações muito diferentes.
A ascensão das grandes empresas americanas
Nos Estados Unidos, a expansão da indústria produziu rapidamente empresas de grande escala. John D. Rockefeller e seus sócios organizaram a Standard Oil, fundada em 1870, que passou a controlar uma parcela extraordinária do refino e da distribuição de petróleo norte-americanos. A companhia desenvolveu refinarias, redes de transporte e sistemas de distribuição, tornando-se símbolo da concentração empresarial da chamada Era Dourada.
A Standard Oil foi considerada um monopólio pelo governo norte-americano e acabou desmembrada em 1911, após decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos. Dela surgiram empresas que posteriormente se tornariam gigantes mundiais, entre elas Standard Oil of New Jersey, que deu origem à Esso e posteriormente à Exxon, e Standard Oil of New York, associada à futura Mobil. A indústria também contou com outras grandes companhias, como Chevron e Gulf Oil, consolidando a presença norte-americana no mercado internacional.
O petróleo se transforma em combustível para o século XX
A verdadeira explosão da demanda ocorreu com a expansão dos motores de combustão interna. No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, gasolina e óleo diesel passaram a alimentar automóveis, caminhões, tratores, locomotivas, navios e, posteriormente, aeronaves. O petróleo deixou de ser principalmente uma fonte de produtos para iluminação e passou a ocupar uma posição central nos transportes e na indústria.
A Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, demonstrou a importância estratégica dos combustíveis derivados do petróleo. Veículos militares, navios, aviões e equipamentos mecanizados dependiam cada vez mais de combustíveis líquidos. Depois da guerra, a expansão do automóvel e da produção industrial ampliou ainda mais o consumo. Grandes campos descobertos no Texas, em Oklahoma, na Califórnia e em outras regiões dos Estados Unidos ajudaram o país a se tornar uma potência petrolífera.
A indústria também se internacionalizou rapidamente. Companhias norte-americanas e europeias passaram a procurar reservas no Oriente Médio, na América Latina e em outras regiões. A exploração ganhou dimensão geopolítica porque controlar reservas, oleodutos, refinarias e rotas de transporte significava ter acesso a uma matéria-prima essencial para economias industriais e forças militares. O petróleo passou, então, a influenciar decisões econômicas e estratégicas muito além dos países produtores.
De combustível a matéria-prima para milhares de produtos
A diversidade do petróleo ficou ainda mais evidente com o desenvolvimento da indústria petroquímica. A partir de suas frações e de substâncias derivadas delas, tornou-se possível fabricar matérias-primas para plásticos, fibras sintéticas, borrachas sintéticas, detergentes, solventes, tintas, fertilizantes e diversos produtos industriais. A petroquímica ampliou a importância do petróleo porque seu valor deixou de estar restrito à produção de combustíveis.
Essa transformação ocorreu principalmente durante o século XX, com avanços na química orgânica, no craqueamento e em outros processos de refino. O craqueamento térmico e, depois, o catalítico permitiram quebrar moléculas maiores de hidrocarbonetos e obter produtos mais adequados às necessidades da indústria. A gasolina, por exemplo, tornou-se cada vez mais importante à medida que os motores passaram a exigir combustíveis com características específicas.
A descoberta do petróleo no Brasil
No Brasil, as primeiras iniciativas sistemáticas de pesquisa petrolífera ocorreram ainda no Império e continuaram durante a República. Em 1858, o governo imperial concedeu a autorização para a exploração de turfa e petróleo na região de Ilhéus, na Bahia. Décadas depois, diferentes perfurações foram realizadas em busca de petróleo, mas os resultados eram pequenos e tecnicamente limitados.
A primeira descoberta considerada comercialmente relevante ocorreu em 1939, em Lobato, na Bahia. O poço, perfurado pelo Conselho Nacional do Petróleo (CNP), confirmou a existência de petróleo na região. A descoberta aconteceu durante o governo de Getúlio Vargas e teve grande importância política porque fortaleceu a ideia de que o Brasil possuía reservas capazes de sustentar uma indústria petrolífera nacional.
O governo Vargas havia criado o Conselho Nacional do Petróleo em 1938, em um contexto de crescente preocupação com a soberania sobre os recursos minerais. O petróleo passou a ser tratado como recurso estratégico, e a exploração de jazidas deixou de ser vista apenas como atividade econômica privada. A campanha pelo controle nacional da produção ganharia força nas décadas seguintes, até desembocar na criação de uma empresa estatal dedicada ao setor.
Vargas, o petróleo e a criação da Petrobras
A campanha “O petróleo é nosso” tornou-se uma das mais conhecidas mobilizações políticas brasileiras do período. Nacionalistas defendiam que a exploração deveria permanecer sob controle brasileiro, enquanto setores favoráveis à participação estrangeira argumentavam que empresas internacionais poderiam fornecer capital e tecnologia necessários para acelerar a produção.
Em 3 de outubro de 1953, Getúlio Vargas sancionou a Lei nº 2.004, que criou a Petrobras e estabeleceu o monopólio estatal da União sobre importantes atividades relacionadas à pesquisa, lavra, refinação e transporte de petróleo. A empresa começou efetivamente suas operações em 1954. Petrobras — história e perfil da companhia
A criação da Petrobras não significou que o Brasil tivesse encontrado imediatamente grandes reservas capazes de garantir autossuficiência. A empresa precisou desenvolver capacidade técnica, ampliar a pesquisa geológica e buscar petróleo em áreas cada vez mais difíceis. Nas décadas seguintes, a exploração avançou da terra para o mar, criando as bases para as descobertas de grandes campos na plataforma continental.
A trajetória brasileira culminaria décadas depois com o desenvolvimento de tecnologias de exploração em águas profundas e ultraprofundas. A descoberta do pré-sal, anunciada em 2006 no campo de Tupi, na Bacia de Santos, confirmou a existência de enormes acumulações de petróleo sob uma espessa camada de sal. A produção comercial do pré-sal começou em 2009, transformando novamente a posição do Brasil no mercado petrolífero internacional.
O petróleo também deixou uma marca curiosa na cultura material do século XX: a indústria automobilística ajudou a transformar um de seus derivados em um produto cotidiano muito específico, o asfalto. Embora o betume natural já fosse empregado na Antiguidade para impermeabilização e pavimentação, a expansão da produção de petróleo forneceu grandes quantidades de betume refinado, contribuindo para a pavimentação moderna de ruas e estradas e aproximando uma substância conhecida havia milênios da paisagem urbana contemporânea.