Os pterodáctilos eram répteis voadores pertencentes ao gênero Pterodactylus, que viveram durante o período Jurássico Superior, há aproximadamente 150 milhões de anos, na região hoje ocupada pela Alemanha, no sul da Baviera. O primeiro fóssil do grupo foi descrito em 1784 pelo naturalista italiano Cosimo Alessandro Collini, a partir de um espécime encontrado nas camadas calcárias de Solnhofen. Esses animais não eram dinossauros, mas integravam a ordem Pterosauria, grupo de répteis voadores que existiu entre o período Triássico Superior e o final do período Cretáceo, entre cerca de 228 e 66 milhões de anos atrás.
O termo “pterodáctilo” é frequentemente usado de forma genérica para designar qualquer pterossauro, embora tecnicamente se refira apenas ao gênero Pterodactylus e a espécies próximas do subgrupo Pterodactyloidea. Esses animais viviam próximos a lagos, lagoas costeiras e ambientes lacustres rasos, onde encontravam alimento e locais adequados para reprodução. A estrutura anatômica desses répteis incluía membrana alar sustentada por um dedo alongado da mão, crista craniana em algumas espécies e corpo coberto por uma estrutura filamentosa chamada picnofibra, distinta das penas das aves.
Para entender como os pterodáctilos se reproduziam, pesquisadores dependem principalmente de descobertas paleontológicas realizadas na China e na Argentina nas últimas duas décadas. Essas descobertas revelaram ninhos, ovos e até embriões preservados, permitindo reconstruir aspectos do comportamento reprodutivo desse grupo de répteis voadores, incluindo indícios sobre cuidado parental, hábitos de nidificação e vulnerabilidade a eventos climáticos extremos.
Como eram os ninhos dos pterodáctilos?
Os ninhos de pterossauros mais estudados foram descobertos na Formação Tiaojishan e na bacia de Turpan-Hami, na região de Xinjiang, noroeste da China. Em 2017, o paleontólogo chinês Xiaolin Wang e sua equipe descreveram um sítio com mais de 200 ovos da espécie Hamipterus tianshanensis, datado do início do período Cretáceo, há aproximadamente 120 milhões de anos. O achado incluiu ovos tridimensionais preservados junto a embriões, o que permitiu identificar detalhes da estrutura óssea antes mesmo da eclosão.
Os ovos de pterossauros tinham casca fina e flexível, semelhante à de répteis atuais como serpentes e alguns lagartos, e não à casca rígida típica dos ovos de aves. Essa característica indica que os ovos absorviam umidade do ambiente e provavelmente eram enterrados parcialmente em areia ou solo úmido próximo à água, método de incubação também observado em crocodilianos modernos. A concentração de centenas de ovos em uma área relativamente pequena sugere comportamento de nidificação coletiva, com múltiplas fêmeas depositando ovos no mesmo local ao longo de sucessivas estações reprodutivas.
Outro sítio relevante foi identificado na Argentina, na Formação Lagarcito, província de San Luis, onde foram encontrados ovos atribuídos ao gênero Pterodaustro, pterossauro do período Cretáceo Inferior conhecido por suas centenas de dentes filiformes usados para filtrar alimento na água. Esses achados, descritos por pesquisadores como Laura Codorniú, reforçam a hipótese de que diferentes famílias de pterossauros compartilhavam estratégias reprodutivas semelhantes, incluindo nidificação próxima a corpos d’água e deposição de ovos em substrato macio.
Havia cuidado parental?
A questão do cuidado parental entre pterossauros ainda gera debate entre paleontólogos, mas as evidências disponíveis indicam um padrão intermediário. Estudos anatômicos dos ossos das asas em embriões de Hamipterus tianshanensis, publicados por Xiaolin Wang em 2017 na revista Science, mostraram que os filhotes provavelmente não conseguiam voar imediatamente após a eclosão, apesar de possuírem esqueleto relativamente desenvolvido. Essa condição, chamada de desenvolvimento semiprecocial, sugere que os filhotes recém-nascidos ainda dependiam de algum nível de proteção parental nos primeiros dias de vida.
Por outro lado, a análise de ovos de Pterodaustro guinazui na Argentina, publicada em 2013 na revista PLOS ONE por Codorniú e colaboradores, indicou desenvolvimento ósseo avançado nos embriões, compatível com maior autonomia logo após a eclosão. Essa diferença entre espécies mostra que o grau de dependência dos filhotes provavelmente variava entre famílias distintas de pterossauros, sem um padrão único aplicável a todo o grupo. Não existe, até o momento, evidência fóssil direta de adultos incubando ovos por meio de contato corporal contínuo, como fazem algumas aves atuais.
A concentração de ovos em colônias densas, associada a camadas geológicas que registram eventos de tempestade na bacia de Turpan-Hami, indica que a nidificação coletiva também representava risco. Parte dos ovos descobertos por Wang apresentava sinais de soterramento repentino, provavelmente causado por enchentes ou tempestades que atingiram a colônia antes da eclosão. Esse padrão de mortalidade em massa sugere que a reprodução em grupo, apesar de oferecer alguma proteção contra predadores, também deixava ovos e filhotes vulneráveis a desastres naturais localizados.
Comportamento de caça e alimentação dos pterodáctilos
O comportamento alimentar dos pterodáctilos variava conforme o tamanho corporal e a estrutura da mandíbula de cada espécie. O Pterodactylus antiquus, espécie de menor porte com envergadura de asas entre 50 centímetros e um metro, provavelmente se alimentava de pequenos peixes, insetos e outros invertebrados capturados em ambientes rasos próximos à costa. Fósseis com conteúdo estomacal preservado e a forma afilada dos dentes desse gênero sustentam essa interpretação entre paleontólogos como David Unwin, especialista britânico em pterossauros.
Espécies maiores de pterossauros, como o Pteranodon longiceps, descrito pelo paleontólogo norte-americano Othniel Charles Marsh em 1876 a partir de fósseis do Kansas, possuíam envergadura de até sete metros e mandíbulas desprovidas de dentes, adaptadas à captura de peixes em mergulhos rasantes sobre mares interiores da América do Norte durante o período Cretáceo Superior. Já o Quetzalcoatlus northropi, encontrado no Texas e considerado o maior animal voador já identificado, com envergadura estimada entre 10 e 11 metros, provavelmente se alimentava de forma oportunista em ambientes terrestres, caçando pequenos vertebrados de maneira semelhante a algumas aves pernaltas atuais, segundo análises publicadas por Kevin Padian. Esses diferentes hábitos alimentares indicam que os pterossauros não formavam um grupo comportamentalmente uniforme, mas ocupavam nichos ecológicos distintos conforme tamanho e estrutura anatômica.
A extinção completa dos pterodáctilos e de todos os demais pterossauros ocorreu no limite entre os períodos Cretáceo e Paleógeno, há aproximadamente 66 milhões de anos, evento associado ao impacto de um asteroide na península de Yucatán, no atual México, que formou a cratera de Chicxulub. Esse evento de extinção em massa eliminou também os dinossauros não avianos e cerca de 75% das espécies existentes na Terra na ocasião, segundo consenso entre geólogos e paleontólogos baseado em análises da camada de irídio identificada globalmente em sedimentos desse período. Diferentemente das aves, que sobreviveram por representarem um ramo específico de dinossauros terópodes, os pterossauros não deixaram descendentes vivos, o que torna seu registro fóssil a única fonte disponível para reconstruir hábitos como nidificação, cuidado parental e comportamento de caça.
O próprio nome “pterodáctilo”, cunhado a partir dos termos gregos pterón (asa) e dáktylos (dedo), só passou a ser usado depois que o naturalista francês Georges Cuvier reinterpretou, em 1801, o fóssil originalmente descrito por Collini, identificando corretamente o animal como um réptil voador extinto e não como um mamífero marinho, hipótese defendida inicialmente por outros estudiosos do século XVIII.
