Estreito de Ormuz: a instabilidade histórica

Devido à sua importância para o transporte global de petróleo, a região tem sido um epicentro de tensões geopolíticas.

HiperHistória
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Foto: Google Gemini/HiperHistória

O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas e vitais do mundo, conectando o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. Devido à sua importância crucial para o transporte global de petróleo, a região tem sido historicamente um epicentro de tensões geopolíticas. Ao longo das décadas, diversas crises ocorreram neste gargalo geográfico, envolvendo principalmente o Irã, países árabes vizinhos e potências ocidentais, em especial os Estados Unidos. A segurança do estreito é frequentemente usada como ferramenta de barganha diplomática e militar.

Um elemento central das tensões na região é o controle sobre três pequenas, mas estrategicamente localizadas, ilhas no Golfo Pérsico, próximas ao estreito: Abu Musa, Grande Tunb e Pequena Tunb. O controle efetivo do Irã sobre essas ilhas começou oficialmente em 30 de novembro de 1971. Essa ocupação militar ocorreu logo após a retirada das forças britânicas da região e apenas dois dias antes da formação oficial dos Emirados Árabes Unidos (EAU), que até hoje reivindicam a soberania sobre o território.

Controle sobre Ormuz

Na época da ocupação, em 1971, o xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, enviou tropas navais para assegurar o controle das ilhas, justificando a ação com base em antigas reivindicações históricas do império persa. Um acordo de administração conjunta de Abu Musa havia sido negociado previamente com o emirado de Sharjah, mas as forças iranianas acabaram assumindo o controle militar total de ambas as Tunbs e da própria Abu Musa. Desde então, o Irã construiu instalações militares nessas ilhas, consolidando seu domínio tático sobre o Estreito de Ormuz e gerando um impasse diplomático contínuo.

Quanto às crises de navegação, o primeiro grande conflito moderno no estreito foi a chamada Guerra dos Petroleiros, que ocorreu durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988). Ambas as nações começaram a atacar os navios mercantes e petroleiros uma da outra, além de embarcações de países que apoiavam o inimigo. O Irã utilizou minas navais e lanchas rápidas no Estreito de Ormuz, levando os Estados Unidos a intervir diretamente com a Operação Earnest Will em 1987, para proteger navios de bandeira kuwaitiana e garantir o fluxo de petróleo.

Após uma relativa calma na virada do milênio, as tensões voltaram a escalar significativamente, resultando na Crise de 2011-2012. Em resposta às rígidas sanções internacionais lideradas pelos EUA e pela União Europeia contra o programa nuclear iraniano, autoridades de Teerã ameaçaram repetidamente fechar o Estreito de Ormuz. A crise envolveu exercícios navais iranianos ostensivos, lançamento de mísseis de teste e advertências diretas para que porta-aviões americanos não retornassem ao Golfo Pérsico, o que gerou forte apreensão nos mercados globais de energia e aumentou o preço do petróleo.

Em 2019, o Estreito de Ormuz testemunhou uma terceira grande onda de instabilidade. Entre maio e junho daquele ano, vários petroleiros comerciais de diferentes nacionalidades sofreram misteriosos ataques com minas magnéticas, que os Estados Unidos e seus aliados atribuíram ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. A situação atingiu um ponto crítico semanas depois, quando o Irã abateu um drone de vigilância militar dos EUA que voava próximo ao estreito, quase provocando um ataque aéreo americano de retaliação em larga escala.

A instabilidade atual

A instabilidade continuou na década de 2020, caracterizando uma quarta crise contínua, marcada por uma série de apreensões de navios comerciais por forças iranianas. O Irã justificou essas ações, que ocorreram com grande frequência entre 2021 e as tensões pós-2023 no Oriente Médio, como respostas legais a infrações marítimas ou em retaliação ao confisco de seu próprio petróleo pelos Estados Unidos em águas internacionais. Esses incidentes de “olho por olho” forçaram marinhas internacionais a manterem coalizões de patrulha regulares para dissuadir abordagens hostis.

No total, a comunidade internacional contabiliza pelo menos quatro grandes ciclos de crises agudas (a Guerra dos Petroleiros, as tensões nucleares de 2011-2012, os ataques de 2019 e a guerra de apreensões contínua dos anos 2020), embora escaramuças menores ocorram quase anualmente. O controle iraniano ininterrupto sobre as ilhas de Abu Musa e das Tunbs desde 1971 continua sendo um pilar insubstituível da estratégia de Teerã de projeção de poder naval. Enquanto o mundo depender do transporte por essa estreita faixa de água, o Estreito de Ormuz permanecerá como um dos pontos de estrangulamento geopolítico mais voláteis do planeta.

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