Irã e as heranças do Império Persa

A fundação do Império Aquemênida por Ciro, o Grande, por volta de 550 a.C., marca o início formal dessa trajetória, embora civilizações ainda mais antigas, como Elam, já habitassem a região milênios antes.

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O Irã, historicamente conhecido como Pérsia até 1935 no Ocidente, é uma das civilizações contínuas mais antigas do mundo, com uma história que se estende por mais de 2.500 anos. A fundação do Império Aquemênida por Ciro, o Grande, por volta de 550 a.C., marca o início formal dessa trajetória, embora civilizações ainda mais antigas, como Elam, já habitassem a região milênios antes. Essa imensa longevidade confere ao país um profundo senso de orgulho histórico e uma identidade singular e ininterrupta no Oriente Médio.

Os iranianos de hoje cultivam, de maneira extremamente vívida, a cultura e o ethos de seu passado imperial. O historiador Michael Axworthy, em sua obra “Empire of the Mind: A History of Iran”, argumenta que o Irã não é definido apenas por suas fronteiras territoriais políticas, mas por uma vasta e resiliente fronteira cultural e linguística que sobreviveu a inúmeras invasões gregas, árabes e mongóis. A “ideia do Irã” persiste fortemente por meio da reverência contínua à língua farsi e à preservação de suas artes ancestrais.

Essa herança imperial é visível no cotidiano contemporâneo, transcendendo as mudanças de regimes políticos. O Nowruz, o Ano Novo persa de raízes zoroastrianas que celebra o equinócio de primavera, continua sendo a data mais importante e festejada do calendário nacional iraniano. Além disso, o Shahnameh (O Livro dos Reis), grandioso épico escrito pelo poeta Ferdowsi no século XI, é lido e declamado até hoje, servindo como o principal pilar da identidade pré-islâmica que manteve a cultura persa viva diante das intensas transformações na região.

O Irã da monarquia à república

Em termos de nacionalidade, a transição do regime imperial para a República Islâmica representou uma profunda reconfiguração ideológica e social. O historiador Ali Ansari destaca que o nacionalismo sob a dinastia Pahlavi (no século XX) era essencialmente dinástico, secular e focado em um passado ariano glorificado. A nacionalidade, nesse contexto, estava ligada à lealdade ao monarca — o “Rei dos Reis” — e a um projeto de modernização acelerada que frequentemente marginalizava a profunda influência de séculos de história islâmica no país.

Com a Revolução de 1979, o conceito de pertencimento nacional foi redefinido de forma radical, substituindo o monarquismo secular por um islamismo xiita institucionalizado no aparelho de Estado. A nacionalidade iraniana passou a ser politicamente atrelada à submissão ao conceito de Velayat-e Faqih (a Tutela do Jurista Islâmico), onde a figura do cidadão ideal convergiu com a do fiel religioso. O estado pós-revolucionário tentou inicialmente minimizar os símbolos do nacionalismo antigo em favor de uma identidade coletiva puramente pan-islâmica.

Essa fricção gerou uma identidade moderna complexa, forjada no choque e na eventual acomodação entre o Irã antigo e o Irã islâmico. O historiador Abbas Amanat, em “Iran: A Modern History”, observa que os iranianos contemporâneos navegam diariamente por uma “identidade dual”, equilibrando as memórias poéticas de um império formidável com as dinâmicas estritas de uma teocracia. Ocorreram mudanças estruturais claras na forma como a nacionalidade passou a ser definida publicamente pelo Estado:

  • Fundamento da lealdade: A submissão cívica à dinastia e ao orgulho do “sangue persa” foi substituída pela fidelidade ao Líder Supremo e à comunidade religiosa (Ummah).
  • Narrativa histórica oficial: A centralidade absoluta de Ciro, o Grande, e do império aquemênida deu lugar à exaltação da Revolução de 1979, do clero e das grandes figuras do islamismo xiita.
  • Papel do cidadão: O ideal do súdito secular e ocidentalizado foi trocado pelo cidadão “piedoso”, cujo comportamento e vestimenta devem refletir rigorosamente a moralidade islâmica na esfera pública.

Apesar dos esforços estatais iniciais para suprimir a história imperial secular, o governo eventualmente percebeu que precisava do nacionalismo persa para manter a coesão do país, especialmente diante de grandes ameaças externas. Hoje, a República Islâmica utiliza a retórica da grandeza civilizacional do antigo império quando conveniente, particularmente para justificar e consolidar sua influência geopolítica. Isso demonstra que, na prática emocional do povo, a nacionalidade iraniana tornou-se um amálgama indissociável da herança persa e da fé.

O luto, a guerra e a cultura do martírio

A forma como o Irã lida com o sofrimento militar e a guerra contrasta drasticamente com as concepções ocidentais modernas de perda e luto. No Ocidente, a morte em combate é predominantemente vista através das lentes da perda trágica individual, da interrupção do potencial de vida e do trauma psicológico que requer terapias de cura. A guerra é frequentemente encarada pela sociedade civil como uma falha extrema ou um mal lastimável, e o foco pós-conflito recai sobre o luto reparatório privado para os familiares dos veteranos caídos.

No Irã xiita, por outro lado, o sofrimento e a morte em batalha são completamente transcendentalizados pelo conceito sociorreligioso de Shahadat (martírio), enraizado na Batalha de Karbala (século VII), onde o Imã Hussein foi brutalmente morto ao desafiar a tirania. O historiador Ervand Abrahamian documenta exaustivamente como essa narrativa milenar foi instrumentalizada durante os oitos anos de carnificina da Guerra Irã-Iraque (1980-1988). O Estado iraniano não apresentou a morte de milhares de jovens como uma tragédia, mas como um triunfo espiritual supremo, transformando o trauma em uma mobilização política fervorosa que sustentou as frentes de batalha.

O paradigma de Ashura (a memória da morte de Hussein) ensina culturalmente que lutar contra a injustiça cósmica ou terrena, mesmo diante da aniquilação certa, é a maior das vitórias humanas. O luto público no Irã, portanto, não é um silêncio contido em cemitérios ocidentais pacatos, mas uma expressão catártica, coletiva e ritualística que reafirma publicamente o compromisso da comunidade com o sacrifício. Assim, a dor inegável da guerra é metabolizada pelo povo não como um fim vazio, mas como um combustível sagrado que alimenta a resistência contínua da nação, fundindo perfeitamente a resiliência de um antigo império com a convicção invencível do mártir.

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