A fantástica história de Alice de Battenberg

HiperHistória
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Alice de Battenberg, de Philip de László - Edição Google Gemini/ HiperHistória

A história da princesa Alice de Battenberg é frequentemente ofuscada pelo brilho da coroa britânica, sendo lembrada pelo grande público apenas como a sogra da rainha Elizabeth II e mãe do príncipe Philip. No entanto, sua trajetória é uma das mais extraordinárias, complexas e dolorosas da realeza europeia do século XX. Longe de ser um conto de fadas convencional, a vida de Alice foi forjada entre o luxo palaciano, o exílio traumático, o abismo da saúde mental e, finalmente, um heroísmo silencioso que a redimiu aos olhos da História.

Nascida em 1885 no Castelo de Windsor, sob o olhar atento de sua bisavó, a rainha Vitória, Alice enfrentou seu primeiro grande obstáculo logo na infância: a surdez congênita. Contrariando as limitações impostas pela sua condição na época, ela desenvolveu uma notável capacidade de leitura labial não apenas em inglês, mas também em alemão, francês e grego. Essa determinação precoce provou ser essencial para uma mulher que, muito cedo, seria atirada no turbilhão da geopolítica europeia ao se casar, em 1903, com o príncipe Andrew da Grécia e Dinamarca.

O casamento, que inicialmente parecia promissor, rapidamente foi engolido pela instabilidade do continente. A vida de Alice foi marcada por guerras e revoluções incessantes. Ela atuou como enfermeira na linha de frente durante as Guerras Balcânicas, viu parentes próximos serem assassinados na Revolução Russa e, em 1922, sua família foi forçada a um exílio humilhante após seu marido escapar por pouco do fuzilamento na Grécia. A perda de status, de lar e de segurança lançou as bases para uma profunda e devastadora crise pessoal.

Intenação em um sanatório e Freud

O impacto emocional do exílio e do colapso de seu mundo culminou, no final da década de 1920, em um severo abalo mental. Diagnosticada com esquizofrenia paranoide, a princesa foi arrancada de sua família contra a sua vontade e internada em um sanatório na Suíça. É neste ponto que sua biografia cruza com a de Sigmund Freud, que foi consultado sobre o caso. Em um episódio que hoje é visto como uma agressão médica brutal, Freud recomendou que os ovários de Alice fossem submetidos a raios-X para “matar sua libido” e curar o que ele acreditava ser uma frustração sexual, prolongando o sofrimento de uma mulher que passou anos trancada, lutando para provar sua sanidade.

Após finalmente se recuperar e deixar o sanatório, Alice encontrou sua família estilhaçada: suas filhas estavam casadas com aristocratas alemães (alguns com laços nazistas) e seu filho Philip vivia na Inglaterra. Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, ela tomou a corajosa decisão de permanecer em Atenas, dedicando-se incansavelmente aos mais vulneráveis. Durante a violenta ocupação nazista na Grécia, suas ações incluíram:

  • Trabalho humanitário ininterrupto: Organização de cozinhas comunitárias, orfanatos e distribuição de suprimentos médicos em meio à fome devastadora.
  • Resistência ativa: Ocultação da família judia Cohen no último andar de sua própria residência, salvando-os da deportação para os campos de concentração.
  • Astúcia contra o inimigo: Utilização de sua surdez como um disfarce brilhante, fingindo não entender as perguntas da Gestapo quando os oficiais batiam à sua porta para interrogatórios.

Quando a Grécia estava sob domínio nazista, um general alemão a visitou em sua residência em Atenas. Sabendo que ela tinha origens alemãs e que algumas de suas filhas eram casadas com oficiais do país dele, o militar assumiu uma postura prestativa e perguntou educadamente se havia algo que ele pudesse fazer por ela. Sem hesitar, Alice deu uma resposta cortante e inesquecível:

“Você pode tirar as suas tropas do meu país.”

Com o fim da guerra, a princesa Alice já havia abandonado as convenções reais de luxo. Profundamente religiosa e desapegada de bens materiais, ela fundou uma ordem de freiras ortodoxas gregas, a Irmandade Cristã de Marta e Maria. Sua transformação estética e espiritual foi tão marcante que, na coroação de sua nora, a rainha Elizabeth II, em 1953, Alice contrastou de forma gritante com as tiaras e vestidos de veludo da nobreza ao cruzar a Abadia de Westminster vestindo um austero hábito cinza de freira.

Alice, a princesa corajosa

Biógrafos de renome, em especial Hugo Vickers, autor da aclamada obra Alice: Princess Andrew of Greece, destacam que a princesa foi muito mais do que a figura excêntrica ocasionalmente retratada na cultura pop. A visão literária e histórica de Vickers resgata Alice como uma mulher de imensa integridade espiritual inabalável. O perigo nunca a intimidou. Quando alertada por amigos sobre o risco de ser fuzilada por suas ações subversivas na guerra, a princesa proferiu uma de suas citações mais emblemáticas, marcada por seu pragmatismo mordaz:

“Eles me dizem que você não ouve o tiro que te mata e, de qualquer forma, sou surda, então por que me preocupar com isso? Eu não saberia, saberia?”.

Mais tarde, o príncipe Philip avaliaria as ações da mãe com reverência: “Suspeito que nunca tenha ocorrido a ela que sua ação fosse de alguma forma especial. […] Teria considerado uma ação totalmente humana para com seres humanos em perigo”.

Nos últimos anos de sua vida, devido ao declínio da saúde e a um golpe militar na Grécia em 1967, Alice foi convencida a se mudar para o Palácio de Buckingham, onde faleceu pacificamente em 1969. Ela foi sepultada inicialmente na Cripta Real da Capela de São Jorge, em Windsor, mas este não era o seu desejo final. Quase vinte anos depois, em 1988, seus restos mortais foram finalmente transferidos para o local que ela havia escolhido: o Monte das Oliveiras, em Jerusalém, sendo sepultada na Igreja de Maria Madalena. Em 1993, a princesa que escolheu a compaixão em vez da coroa foi postumamente homenageada como “Justa Entre as Nações” pelo memorial do Holocausto Yad Vashem, eternizando sua fantástica jornada de superação.

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