A história da domesticação das galinhas começa nas densas florestas tropicais do Sudeste Asiático, onde vive o seu ancestral direto: o Galo-banquiva (Gallus gallus). Ao contrário das aves rechonchudas e dóceis que conhecemos hoje na agricultura, o galo-banquiva é uma ave arisca, voadora e de plumagem vibrante, perfeitamente adaptada para escapar de predadores na selva. Estudos genéticos e arqueológicos confirmam que essa espécie selvagem foi a principal matriz biológica de todas as galinhas domésticas (Gallus gallus domesticus) que existem no planeta.
O cronograma exato dessa domesticação foi alvo de longos debates científicos, mas descobertas recentes indicam que o processo começou de forma mais consolidada por volta de 1.500 a.C., na região que hoje compreende a Tailândia e o Vietnã. Esse evento esteve intrinsecamente ligado ao desenvolvimento da agricultura, mais especificamente ao cultivo de arroz seco e milhete. À medida que as comunidades humanas derrubavam pequenas áreas de floresta para plantar esses grãos, criavam um habitat de borda que atraía os galos-banquivas em busca de alimento fácil (insetos e sementes), iniciando uma aproximação gradual e mutuamente benéfica.
Domesticadas por razões religiosas
Curiosamente, a motivação inicial para atrair e manter essas aves nos assentamentos humanos não foi a alimentação. Os ossos encontrados nos sítios arqueológicos mais antigos raramente apresentam marcas de corte humano, sugerindo que as primeiras galinhas não eram consumidas em larga escala como fonte primária de proteína. Historiadores e arqueólogos acreditam que elas foram inicialmente valorizadas por razões culturais e religiosas, sendo utilizadas principalmente em rinhas de galo (uma prática milenar de exibição de posição e poder) e em rituais de adivinhação, onde seus ossos eram “lidos” por sacerdotes.
A partir do Sudeste Asiático, a galinha embarcou em uma jornada de expansão global impulsionada por antigas rotas comerciais marítimas e terrestres. Elas viajaram pelo Oceano Índico e através do continente asiático, chegando à Mesopotâmia e, posteriormente, ao Vale do Nilo. Os antigos egípcios ficaram fascinados por essa ave exótica, apelidando-a de “o pássaro que dá à luz todos os dias”, em referência à sua impressionante e inédita capacidade de botar ovos continuamente. Lá, a adoção de técnicas avançadas de incubação artificial em grandes fornos de barro ajudou a multiplicar a população dessas aves.
A introdução sistemática da galinha na Europa foi conduzida principalmente pelos fenícios e gregos, que as transportaram pelo Mar Mediterrâneo a partir do século VIII a.C. No entanto, foram os romanos que verdadeiramente transformaram a relação ocidental com a ave. Eles começaram a criar galinhas em grande escala para consumo regular de carne e ovos, desenvolvendo as primeiras práticas de engorda. Além da culinária, os romanos também mantinham as chamadas “galinhas sagradas” (pulli), cujos apetites e hábitos alimentares eram rigorosamente observados pelos generais antes das batalhas para prever a vontade dos deuses e o sucesso militar.
Galinhas na Idade Média
Com a queda do Império Romano, a criação organizada dessas aves sofreu um declínio acentuado na Europa, e o tamanho médio das galinhas encolheu significativamente durante os primeiros séculos da Idade Média. Durante esse período, elas voltaram a ser predominantemente aves de quintal que sobreviviam forrageando restos de comida em fazendas e vilarejos medievais. Foi apenas por volta do século XI, impulsionada por melhorias climáticas, avanços agrícolas e por regras monásticas cristãs que proibiam o consumo de carne de quadrúpedes em dias de jejum (mas permitiam o consumo de aves e ovos), que a galinha recuperou sua vitalidade econômica no continente.
O salto final para a galinha contemporânea ocorreu de forma abrupta entre o final do século XIX e meados do século XX. O que antes era uma ave rústica de múltiplos usos foi submetida a um intenso processo de seleção genética e industrialização. O desenvolvimento de linhagens hiper-especializadas — umas otimizadas para o ganho rápido de massa muscular (corte) e outras para a postura incessante (ovos) — transformou a galinha no animal terrestre mais abundante do mundo moderno. Hoje, com dezenas de bilhões de indivíduos, a surpreendente trajetória evolutiva dessa ave reflete perfeitamente a capacidade da humanidade de moldar o mundo natural para sustentar suas civilizações.
