São Serafim de Sarov nasceu em 1754 (ou 1759) na cidade de Kursk, na Rússia, com o nome de batismo Prócoro Moshnin. Filho de uma família de comerciantes devotos, desde cedo demonstrou uma sensibilidade espiritual extraordinária. Um evento marcante de sua infância ocorreu quando ele caiu do alto da torre do sino de uma catedral em construção; para surpresa de todos, o menino levantou-se ileso, o que sua mãe interpretou como um sinal da proteção divina e de uma vocação especial reservada para o futuro.
Aos 19 anos, sentindo um chamado irresistível para a vida religiosa, Prócoro peregrinou até o famoso Mosteiro das Grutas de Kiev para buscar orientação. Lá, foi aconselhado a dirigir-se ao eremitério de Sarov, onde a vida monástica era conhecida por sua severidade e pureza. Ele obedeceu e, após anos de noviciado exemplar, foi tonsurado monge com o nome de Serafim, que significa “ardente” ou “aquele que queima”, refletindo o fogo de seu amor por Deus que transparecia em sua oração.
Vida de eremita
Buscando uma união mais profunda com o divino, Serafim obteve permissão para retirar-se para uma vida eremítica na densa floresta que cercava o mosteiro. Vivendo em uma cabana de madeira simples, dedicava seus dias ao trabalho físico, à leitura das Escrituras e à oração incessante. Foi durante esse período que sua santidade começou a atrair não apenas peregrinos, mas também a natureza selvagem; relatos famosos contam que ele alimentava um enorme urso com pão diretamente de suas mãos, demonstrando a harmonia restaurada entre o homem santo e a criação.
Sua jornada, no entanto, foi marcada por provações terríveis. Em certa ocasião, foi brutalmente atacado por ladrões que pensavam que ele escondia dinheiro em sua cabana. Embora fosse um homem fisicamente forte e estivesse com um machado na mão, Serafim escolheu não resistir, entregando-se ao sofrimento conforme os ensinamentos evangélicos. Os bandidos o espancaram quase até a morte, deixando-o com sequelas permanentes que o fizeram andar curvado pelo resto da vida. Mesmo assim, quando os criminosos foram capturados, Serafim intercedeu por eles e exigiu que fossem perdoados.
Após se recuperar, ele intensificou ainda mais suas práticas ascéticas. Em um dos feitos mais conhecidos da hagiografia ortodoxa, Serafim passou mil dias e mil noites ajoelhado sobre uma grande pedra na floresta, com os braços erguidos aos céus, recitando continuamente a Oração de Jesus: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”. Essa luta espiritual contra as paixões e o desânimo forjou nele uma paz interior inabalável.
São Serafim, o santo da alegria pascal
Após décadas de isolamento e um período de voto de silêncio, a Virgem Maria apareceu-lhe em uma visão, instruindo-o a abrir as portas de sua cela para o mundo. Ele então se tornou um “Starets” (ancião espiritual), recebendo milhares de visitantes que buscavam conselho e cura. Serafim recebia a todos, fossem ricos ou pobres, com uma saudação pascal cheia de ternura: “Minha alegria, Cristo ressuscitou!”. Seu ensinamento central era simples, mas profundo: o objetivo da vida cristã não é apenas fazer boas obras, mas a “aquisição do Espírito Santo”.
São Serafim faleceu pacificamente em 1833, encontrado de joelhos diante do ícone da Virgem Maria, como se estivesse em oração. Sua canonização ocorreu em 1903, em uma cerimônia grandiosa que contou com a presença da família imperial russa e de multidões de fiéis. Até hoje, ele é lembrado como o santo da alegria pascal e da transfiguração pelo Espírito Santo, ensinando que “se adquirires a paz interior, milhares ao teu redor encontrarão a salvação”.
