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Conheça a história de São Thomas Cranmer

Conheça a história de São Thomas Cranmer
Retrato da Coleção de Retratos Galeses da Biblioteca Nacional do País de Gales. Pessoa retratada: Thomas Cranmer – líder da Reforma Inglesa e Arcebispo da Cantuária. Samuel Freeman/Domínio Público

Thomas Cranmer foi o primeiro arcebispo protestante de Cantuária e o arquiteto litúrgico da Igreja da Inglaterra. Nascido em uma família de classe média baixa em Nottinghamshire, ele seguiu a vida acadêmica na Universidade de Cambridge, onde se tornou um teólogo respeitado. Sua ascensão ao poder político e religioso começou quando ele sugeriu que o desejo do rei Henrique VIII de anular seu casamento com Catarina de Aragão fosse debatido por teólogos universitários, em vez de decidido apenas pelo Papa. Essa solução pragmática chamou a atenção do rei, que viu em Cranmer um aliado intelectual valioso para seus objetivos dinásticos.

Em 1533, Henrique VIII nomeou Cranmer como Arcebispo de Cantuária, a posição mais alta da igreja na Inglaterra. Quase imediatamente, Cranmer declarou nulo o casamento do rei com Catarina e validou a união com Ana Bolena. Esse ato marcou o rompimento definitivo da Inglaterra com a autoridade de Roma e estabeleceu a Supremacia Real, colocando o monarca como chefe da igreja. Durante o reinado de Henrique, no entanto, Thomas Cranmer teve que agir com extrema cautela; o rei era teologicamente conservador e oscilava entre o catolicismo tradicional e as novas ideias reformistas, o que obrigava o arcebispo a promover mudanças de forma lenta e diplomática.

A revolução religiosa de Thomas Cranmer

A verdadeira revolução religiosa de Cranmer floresceu sob o reinado do filho de Henrique, Eduardo VI, que subiu ao trono ainda criança em 1547. Com um monarca abertamente protestante, Cranmer pôde finalmente implementar reformas profundas. Ele aboliu o celibato clerical (ele mesmo era secretamente casado), removeu imagens e ícones das igrejas e alterou a doutrina da Eucaristia, afastando-se da crença católica na transubstanciação. Seu objetivo era purificar a igreja inglesa de práticas que ele considerava supersticiosas e alinhá-la com a teologia reformada que varria a Europa.

Sua contribuição mais duradoura e genial foi a criação do Livro de Oração Comum (Book of Common Prayer), publicado pela primeira vez em 1549 e revisado em 1552. Cranmer era um mestre da prosa inglesa e compilou, traduziu e adaptou antigas liturgias latinas para o inglês vernáculo. Pela primeira vez, o povo comum podia entender cada palavra dita nos cultos, participando ativamente das orações. A beleza rítmica e a teologia acessível deste livro moldaram a identidade espiritual do anglicanismo e influenciaram a língua inglesa tanto quanto as obras de Shakespeare.

No entanto, a maré política virou drasticamente com a morte prematura de Eduardo VI em 1553 e a ascensão de sua meia-irmã, Maria I (conhecida como “Maria, a Sanguinária”). Católica fervorosa, Maria estava determinada a restaurar a obediência a Roma e a erradicar o protestantismo. Cranmer foi rapidamente preso, julgado por traição e heresia. Durante seu longo confinamento, sob imensa pressão psicológica e medo da morte, ele fraquejou e assinou várias retratações, renunciando à sua fé protestante e declarando submissão ao Papa, na esperança de ser poupado.

A execução sob Maria I

Apesar de suas retratações, a rainha Maria queria fazer dele um exemplo público e ordenou sua execução. No dia de sua morte, 21 de março de 1556, Cranmer foi levado à Igreja da Universidade de Oxford para fazer uma última confissão pública de seus “erros”. Para choque de todos os presentes, ele desviou do roteiro aprovado. Em um ato final de coragem, renunciou às suas retratações anteriores, declarou que o Papa era o “anticristo” e afirmou que sua mão direita, que havia assinado as falsas confissões, seria a primeira a queimar.

Arrastado para a fogueira, Thomas Cranmer cumpriu sua promessa. Enquanto as chamas subiam, ele estendeu a mão direita ao fogo e a manteve lá até que fosse consumida, gritando: “esta mão indigna!”. Ele morreu com a dignidade de um mártir, transformando sua execução em uma vitória moral para a causa protestante. Embora não seja canonizado como santo pela Igreja Católica (que o considera herege), ele é venerado como santo e mártir na Comunhão Anglicana, lembrado tanto por sua humanidade falível quanto por seu legado litúrgico imortal.

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