A origem da figura do Rei Momo remonta à Mitologia Grega, muito antes de se tornar o símbolo máximo do Carnaval brasileiro. Na Grécia Antiga, ele era chamado de Momo (em grego, Momos), filho de Nix, a deusa da noite. Momo era a personificação do sarcasmo, da zombaria, da crítica maliciosa e da ironia. Diferente de outros deuses que eram venerados por seus feitos heroicos, Momo era temido e, por vezes, detestado por sua língua afiada e sua capacidade de encontrar defeitos em tudo e em todos.
Segundo as lendas, o comportamento de Momo tornou-se insuportável até mesmo para os habitantes do Olimpo. Ele zombou de Hefesto por criar os humanos sem uma porta no peito para que se pudesse ver seus pensamentos, criticou a casa construída por Atena e até mesmo ridicularizou a sandália de Afrodite, por não encontrar outro defeito nela. Cansado de tanta zombaria e negatividade, Zeus, o rei dos deuses, expulsou Momo do Olimpo, condenando-o a viver entre os mortais.
Momo e a ligação à festividade mundana
Ao descer à Terra, a figura de Momo passou a ser associada à festividade profana e à quebra de regras. Como um deus caído que não respeitava hierarquias, ele se tornou o patrono ideal para celebrações que subvertiam a ordem social. Na Roma Antiga, durante as Saturnais — festas que antecederam o Carnaval cristão —, a ideia de um “rei da brincadeira” ou um líder da desordem já começava a ganhar forma, celebrando o triunfo temporário do prazer sobre o dever.
Durante a Idade Média e o Renascimento na Europa, essa figura evoluiu através dos “Bobos da Corte” e das festas de doidos, onde os papéis sociais eram invertidos. O espírito de Momo sobrevivia na literatura e no teatro, especialmente na Commedia dell’arte, representando a liberdade de expressão através do humor grotesco e da sátira política. Ele personificava a ideia de que, durante a festa, a loucura era a única sensatez permitida.
No Brasil, a figura do Rei Momo demorou um pouco para ganhar a forma humana e bonachona que conhecemos hoje. Nos primórdios do Carnaval brasileiro, Momo era frequentemente representado por bonecos de papelão ou madeira, trazidos da tradição europeia, que desfilavam pelas ruas sendo aclamados pelos foliões. Ele era uma entidade simbólica, sem vida própria, que presidia os cortejos e os bailes de máscaras da elite e do povo.
O monarca de carne e osso
A história mudou radicalmente em 1933, no Rio de Janeiro, quando o jornal “A Noite” decidiu criar um monarca de carne e osso para a folia. O cronista Moraes Sarmento foi o responsável por moldar essa nova imagem, elegendo um homem alegre, grande e com ar de bon vivant para encarnar o personagem. A partir desse momento, o Rei Momo deixou de ser um boneco estático para se tornar um cidadão real, com a missão de receber a “Chave da Cidade” e governar a metrópole durante os dias de festa.
Hoje, a lenda do Rei Momo completa seu ciclo como uma tradição consolidada. Quando o prefeito entrega a chave ao Rei Momo na sexta-feira de Carnaval, o ato simboliza a transferência oficial de poder: a burocracia, a tristeza e a rotina são “destituídas”, e o governo da alegria, da dança e da tolerância é instaurado. É a vitória final do deus grego exilado que, impedido de viver no Olimpo, decidiu criar seu próprio reino de felicidade na Terra.
