O vírus Nipah (NiV) é um patógeno zoonótico devastador, pertencente à família Paramyxoviridae, a mesma de vírus conhecidos como o do sarampo e da caxumba. No entanto, o Nipah é consideravelmente mais letal. Ele é classificado como um agente de biossegurança de nível 4, o que significa que exige o mais alto grau de contenção laboratorial. Sua natureza “sorrateira” permite que ele circule entre animais antes de saltar para os seres humanos, causando surtos que, embora geograficamente localizados, costumam ser fatais.
A história desse vírus começou a ser documentada em 1999, durante um surto grave na Malásia e em Singapura. O nome “Nipah” refere-se à aldeia de Kampung Sungai Nipah, onde muitos criadores de porcos foram infectados. Naquela época, o vírus dizimou a indústria suína local, pois os porcos atuavam como hospedeiros intermediários, transmitindo a doença para as pessoas que tinham contato direto com eles. Desde então, o Nipah deixou de ser um evento isolado para se tornar uma preocupação recorrente em partes da Ásia.
Os morcegos frugívoros
Os grandes protagonistas da manutenção desse vírus na natureza são os morcegos frugívoros do gênero Pteropus, popularmente conhecidos como raposas-voadoras. Esses morcegos carregam o vírus sem adoecer, eliminando-o por meio da saliva, urina e fezes. Eles são o reservatório natural, o que torna a erradicação do vírus virtualmente impossível, já que esses animais desempenham papéis ecológicos vitais, como a polinização e a dispersão de sementes em vastas áreas geográficas.
A transmissão para humanos ocorre por caminhos variados e, muitas vezes, culturais. Além do contato direto com porcos infectados, o consumo de alimentos contaminados por morcegos é uma via crítica. Em Bangladesh e na Índia, muitos surtos foram ligados à ingestão de seiva de tamareira crua. Os morcegos lambem a seiva enquanto ela é coletada em potes abertos durante a noite, deixando o vírus para trás. Frutas mordidas por morcegos e consumidas por humanos ou outros animais domésticos também servem como veículos de infecção.
Um dos aspectos mais alarmantes do Nipah, especialmente nos surtos registrados agora em janeiro de 2026, é a capacidade de transmissão de humano para humano. Isso ocorre principalmente através do contato próximo com secreções e fluidos corporais de pacientes infectados. Em ambientes hospitalares ou no cuidado familiar, o risco é altíssimo. Profissionais de saúde têm sido vítimas frequentes, o que exige protocolos rígidos de isolamento e o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) de alto desempenho.
Os sintomas provocados pelo Nipah
Os sintomas iniciais do vírus Nipah são enganosamente comuns, assemelhando-se a uma gripe forte: febre alta, dor de cabeça, dores musculares, vômitos e dor de garganta. Essa fase inicial dificulta o diagnóstico precoce, pois pode ser confundida com diversas outras doenças tropicais. No entanto, a rapidez com que o quadro evolui é o que define a periculosidade do Nipah, transformando um mal-estar comum em uma emergência neurológica em questão de horas ou poucos dias.
A progressão da doença frequentemente leva à encefalite aguda (inflamação do cérebro). O paciente pode apresentar tontura extrema, sonolência e alteração do nível de consciência. Em casos graves, surgem convulsões e o paciente pode entrar em coma em um intervalo de 24 a 48 horas. Além das complicações neurológicas, o vírus também causa problemas respiratórios agudos, que em muitos casos são a causa imediata da morte devido à insuficiência pulmonar.
A taxa de letalidade do Nipah é assustadora, variando entre 40% e 75%, dependendo do surto e da capacidade de resposta do sistema de saúde local. Para se ter uma ideia, isso o torna muito mais mortal que a COVID-19. Mesmo aqueles que sobrevivem podem enfrentar um longo caminho de recuperação: cerca de 20% dos sobreviventes ficam com sequelas neurológicas permanentes, como transtornos convulsivos ou mudanças persistentes de personalidade. Há também relatos raros de “Nipah latente”, onde o vírus reativa anos após a infecção inicial.
Não há vacina contra o vírus
Atualmente, não existe vacina nem tratamento específico aprovado para humanos ou animais. O manejo da doença é baseado estritamente em cuidados de suporte intensivo para tratar as complicações respiratórias e neurológicas. O diagnóstico é feito principalmente por meio de testes de RT-PCR em fluidos corporais ou pela detecção de anticorpos (ELISA), mas a janela para um tratamento eficaz é curtíssima, o que coloca a prevenção e a detecção rápida no centro da estratégia de combate.
Em 2026, o vírus Nipah permanece na lista da Organização Mundial da Saúde como uma das doenças prioritárias para pesquisa devido ao seu potencial epidêmico. A prevenção envolve evitar o consumo de seiva de tamareira crua, lavar bem as frutas e manter distância de morcegos e porcos doentes. A vigilância global é constante, pois, em um mundo conectado, um vírus com tamanha letalidade e capacidade de transmissão humana representa um risco que a ciência corre contra o tempo para neutralizar.
