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Por que os reis se casavam entre parentes?

Por que reis se casavam entre parentes?
Foto: Google Gemini/HiperHistória

O casamento entre parentes nas famílias reais, conhecido como endogamia, foi uma estratégia política deliberada utilizada durante séculos para preservar o poder. A razão principal era a manutenção da dinastia: ao casar primos ou tios com sobrinhas, as famílias garantiam que o trono permanecesse sob o controle da mesma linhagem sanguínea. Havia um medo constante de que, ao casar com membros de outras famílias nobres, o poder fosse diluído ou usurpado por facções rivais, o que tornava o casamento interno uma “apólice de seguro” para a sucessão.

Outro motivo central era a diplomacia internacional e a formação de alianças. Na Europa medieval e moderna, os casamentos eram tratados de estado, não uniões românticas. Reis casavam seus filhos com os filhos de outros monarcas para selar tratados de paz, garantir apoio militar ou unificar reinos. Como a nobreza europeia era uma elite restrita, após algumas gerações dessa prática diplomática, praticamente todos os monarcas da Europa tornaram-se parentes em algum grau, tornando os casamentos consanguíneos inevitáveis.

Casamento com parentes

A questão territorial e econômica também pesava muito nessas decisões. O casamento entre parentes ajudava a evitar a fragmentação das terras e das riquezas da coroa. Dotes, propriedades e títulos de nobreza eram bens valiosos; casar “dentro de casa” significava que esses ativos circulariam apenas dentro da própria família, consolidando a fortuna real e evitando que grandes extensões de terra passassem para o controle de potências estrangeiras ou nobres ambiciosos por herança.

Existia também a crença na “pureza do sangue” e na superioridade divina dos reis. Em muitas culturas, a realeza era vista como uma classe distinta, escolhida por Deus, e misturar esse sangue “azul” com o de plebeus ou mesmo com a nobreza inferior era considerado uma degradação. Essa ideologia reforçava a barreira entre os governantes e os governados, criando uma aura de exclusividade e legitimidade que justificava o seu direito absoluto de governar sobre os súditos comuns.

No entanto, essa busca obsessiva pela pureza teve consequências biológicas desastrosas. O exemplo mais famoso é a Casa de Habsburgo, que governou a Espanha e o Sacro Império Romano-Germânico. Gerações de casamentos entre tios e sobrinhas resultaram em graves problemas genéticos, culminando em características físicas deformantes, como o famoso “queixo de Habsburgo” (prognatismo mandibular), e em problemas de saúde mental e infertilidade, que eventualmente levaram à extinção da linhagem espanhola com a morte de Carlos II, que era incapaz de gerar herdeiros.

Prática entre reis e rainhas de outras monarquias

Vale notar que essa prática não foi exclusiva das monarquias europeias; ela ocorreu em diversas civilizações antigas por razões teológicas. No Antigo Egito e no Império Inca, por exemplo, os governantes eram considerados deuses vivos na Terra. Para manter a sua divindade, eles não podiam se casar com humanos mortais. Assim, faraós frequentemente se casavam com suas próprias irmãs para imitar os deuses (como Ísis e Osíris) e manter a natureza sagrada de sua linhagem totalmente intacta.

Hoje, a prática caiu em desuso devido à compreensão moderna da genética e à mudança no papel das monarquias. Com o conhecimento dos riscos de doenças recessivas e defeitos congênitos, além da perda do poder político absoluto, as famílias reais modernas abriram seus círculos. Atualmente, é comum e aceitável que herdeiros de tronos europeus se casem com plebeus, priorizando a saúde da prole e a modernização da imagem pública da monarquia em vez da antiga e perigosa obsessão pela pureza sanguínea.

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