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Venezuela: o futuro do chavismo após Maduro

Venezuela: o futuro do chavismo após Maduro
Foto: Google Gemini/HiperHistória

O cenário após a ação que retirou Nicolás Maduro do poder revela um chavismo em imediata e profunda fragmentação. Sem a figura autoritária que mantinha a coesão através do medo e da distribuição de rendas estatais, o movimento perde sua estrutura monolítica. O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), antes uma máquina eleitoral e de controle social formidável, enfrenta uma luta intestina feroz entre facções que buscam se salvar de expurgos legais e aquelas que tentam se reinventar politicamente sob novas regras democráticas.

A primeira grande cisão ocorre entre o “madurismo” e o “chavismo originário”. Os leais a Maduro, agora sem a proteção do aparato repressivo estatal, enfrentam o isolamento internacional e processos judiciais, tornando-se tóxicos politicamente. Em contrapartida, dissidentes afastados nos últimos anos tentam resgatar a imagem de Hugo Chávez, dissociando-a do colapso econômico recente, numa tentativa de manter a relevância junto à base popular que ainda depende de assistência estatal.

A cúpula militar

As Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB), espinha dorsal do regime anterior, operam uma retirada estratégica para preservar seus interesses corporativos. A cúpula militar, profundamente envolvida na governança e na economia sob Maduro, busca negociar anistias ou manter influência nos bastidores. Isso deixa o chavismo civil sem seu braço armado institucional, forçando o movimento a retornar às ruas não mais como governo, mas como uma oposição turbulenta e desorganizada.

Historicamente, o paralelo mais preciso para o destino do chavismo é o Peronismo na Argentina. Assim como Juan Domingo Perón criou um movimento que misturava justiça social, nacionalismo e culto à personalidade, Chávez forjou uma identidade política que transcendeu sua própria vida. Quando Perón morreu ou foi exilado, o peronismo não desapareceu; ele se metamorfoseou, abrigando desde a extrema-esquerda até a direita neoliberal sob a mesma bandeira, adaptando-se para sobreviver.

Chavismo sem Chávez e sem Maduro

No caso venezuelano, o “chavismo sem Chávez” (e agora sem Maduro) tende a seguir essa lógica de sobrevivência camaleônica. O movimento deve deixar de ser um regime hegemônico para se tornar uma cultura política de resistência. A narrativa do “líder mártir” e do “império agressor” continuará a ressoar em bolsões de pobreza, criando uma base eleitoral cativa, semelhante à lealdade que o Partido Justicialista argentino mantém em províncias históricas décadas após a morte de seu fundador.

Contudo, há uma diferença crucial e perigosa em relação ao peronismo histórico: a presença dos “colectivos” armados. Enquanto o peronismo teve seus braços militantes, a capilaridade e o armamento dos grupos paramilitares na Venezuela criam um cenário de instabilidade crônica. A perda do comando centralizado de Maduro pode levar esses grupos à autonomia criminal total ou à formação de guerrilhas urbanas que reivindicam a herança chavista, dificultando a pacificação nacional.

Novo governo

A batalha pela memória será o próximo grande campo de disputa. O novo governo e a sociedade civil tentarão expor a corrupção sistêmica e as violações de direitos humanos para deslegitimar o movimento. O chavismo remanescente, por sua vez, apelará para a nostalgia dos anos de bonança petrolífera do início dos anos 2000, tentando apagar a memória da catástrofe humanitária posterior, vendendo a ideia de que a “revolução foi traída”, e não que ela falhou.

Em suma, o chavismo não deixará de existir, mas encolherá para se tornar uma minoria barulhenta e obstrucionista. O movimento passará por um doloroso processo de depuração, onde apenas os ideólogos mais convictos e os pragmáticos mais hábeis restarão. Assim como o peronismo mantém presença e define a política argentina há 70 anos, o espectro de Chávez continuará a pairar sobre a Venezuela, exigindo que as novas lideranças não apenas reconstruam a economia, mas também disputem a alma política da nação.

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