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Almanaque dos Papas

Pio X: um papa antimodernista

Pio X: um papa antimodernista
Foto: Google Gemini/HiperHistória

A eleição e o pontificado de São Pio X (Giuseppe Melchiorre Sarto) representam um ponto de inflexão na história da Igreja, caracterizados por uma profunda piedade pastoral e uma rejeição enérgica aos erros doutrinários de seu tempo. Abaixo, detalho sua trajetória em sete parágrafos, conforme solicitado.

A eleição de Giuseppe Sarto, no conclave de 1903, foi marcada por um dos últimos episódios de interferência política direta na escolha de um Papa: o “Jus Exclusivae”. Inicialmente, o Cardeal Mariano Rampolla, Secretário de Estado de Leão XIII, era o favorito, mas o Imperador Francisco José I da Áustria-Hungria interpôs um veto formal à sua candidatura, lido pelo Cardeal Puzyna. Os cardeais, indignados, acabaram voltando seus votos para o Patriarca de Veneza, Sarto, que relutou muito em aceitar a tiara. Uma vez eleito, assumiu o nome de Pio X e, como um de seus primeiros atos, aboliu para sempre o direito de veto de potências seculares, sob pena de excomunhão.

Um papa de origem camponesa

Seu pontificado foi guiado pelo lema Instaurare omnia in Christo (“Restaurar todas as coisas em Cristo”). Diferente de seus antecessores, que possuíam muitas vezes perfil aristocrático ou diplomático, Pio X era um homem de origem camponesa e vasta experiência paroquial. Seu foco não estava na política internacional, mas na renovação interna da Igreja, na pureza da doutrina e na piedade dos fiéis. Ele buscou simplificar a burocracia do Vaticano e remover o excesso de pompa da corte papal, mantendo-se sempre fiel à sua simplicidade de “pároco do mundo”.

No campo doutrinário, Pio X travou uma batalha incansável contra o Modernismo, que ele definiu na encíclica Pascendi Dominici Gregis (1907) como a “síntese de todas as heresias”. O Papa percebeu que o movimento tentava adaptar os dogmas católicos às filosofias racionalistas e subjetivistas da época, esvaziando o conteúdo sobrenatural da fé. Para combater essa infiltração, instituiu o Juramento Antimodernista, obrigatório para todo o clero, e fortaleceu a vigilância sobre os seminários e publicações católicas, garantindo a integridade do depósito da fé.

Sua devoção eucarística foi revolucionária e lhe rendeu o título de “Papa da Eucaristia”. Rompendo com séculos de rigorismo jansenista, que via a comunhão como uma recompensa para os perfeitos e não como um remédio para os fracos, Pio X promulgou o decreto Sacra Tridentina Synodus (1905). Este documento incentivava os fiéis à comunhão frequente e até diária, desde que estivessem em estado de graça e tivessem a intenção reta, transformando a prática sacramental da Igreja Católica no século XX.

Pio X e a eucaristia

Ainda no âmbito eucarístico, Pio X tomou a audaciosa decisão de antecipar a Primeira Comunhão das crianças. Com o decreto Quam Singulari (1910), ele baixou a idade mínima para a recepção do sacramento para a “idade da discrição” (cerca de sete anos), quando a criança já é capaz de distinguir o pão eucarístico do pão comum. Até então, era costume esperar até a adolescência (12 ou 14 anos). O Papa argumentava que não se devia impedir as crianças de se aproximarem de Cristo, pois a inocência delas era o terreno mais fértil para a graça.

Além das reformas espirituais, Pio X foi um grande legislador e organizador. Ele ordenou a compilação de todas as leis da Igreja em um único corpo jurídico, o que resultaria no Código de Direito Canônico de 1917 (promulgado por seu sucessor, Bento XV). Também reformou a Cúria Romana, o Breviário e a música sacra, publicando um Motu Proprio que restaurava o Canto Gregoriano como modelo supremo de música litúrgica, afastando o estilo operístico e profano que havia invadido as igrejas.

O fim de sua vida foi marcado pela angústia com a iminência da Primeira Guerra Mundial, que ele tentou evitar sem sucesso, falecendo em agosto de 1914. Em seu testamento, fiel à sua humildade, escreveu: “Nasci pobre, vivi pobre e quero morrer pobre”. Quebrando a tradição secular, proibiu que seu corpo fosse embalsamado e pediu para ser sepultado na cripta da Basílica de São Pedro de forma simples, dispensando a pompa prolongada e solicitando o enterro antes mesmo do fim dos novendiales (os nove dias de luto oficial). Sua santidade foi reconhecida rapidamente, sendo canonizado em 1954, ocasião em que seu corpo foi encontrado incorrupto, apesar da ausência de embalsamamento.

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