A tradição islâmica determina que o funeral deve ocorrer o mais rápido possível, preferencialmente dentro de 24 horas após o falecimento ou antes do próximo pôr do sol. Esta celeridade fundamenta-se, primeiramente, em um ensinamento do Profeta Muhammad, que instruiu seus seguidores a apressarem os funerais. A teologia por trás disso é que, se o falecido era uma pessoa justa, sua alma deve ser entregue rapidamente à recompensa eterna; se não era, o corpo deve ser afastado do convívio dos vivos para não prolongar o peso espiritual sobre a comunidade.
Além da motivação religiosa, existem razões históricas e sanitárias ligadas à origem do Islã na Península Arábica. Em climas desérticos e extremamente quentes, a decomposição do corpo ocorre de forma acelerada. A prática do enterro imediato servia, portanto, como uma medida crucial de higiene e saúde pública, prevenindo a propagação de doenças e odores. Essa prática também reforça o conceito de desapego e a aceitação da realidade da morte, evitando que a família prolongue o estado de negação ao manter o corpo por muito tempo.
O ritual do funeral islâmico
O processo ritual começa com o Ghusl, a lavagem completa e purificadora do corpo. Este ritual é realizado com extremo respeito e dignidade, geralmente por familiares do mesmo sexo do falecido (exceto no caso de cônjuges). O corpo é lavado um número ímpar de vezes (geralmente três), garantindo que esteja fisicamente limpo para o encontro com o Criador. Durante todo o processo, a privacidade do morto é mantida, cobrindo-se as partes íntimas, tratando o cadáver com a mesma delicadeza que se trataria uma pessoa viva.
Após a lavagem, segue-se o Kafan, que é o amortalhamento. No Islã, a ostentação é proibida na morte; não se usam roupas de grife, joias ou caixões luxuosos para exibição. O corpo é envolto em simples lençóis de pano branco e limpo (geralmente três peças para homens e cinco para mulheres). Este ato simboliza a igualdade absoluta de todos os seres humanos diante de Deus: ricos e pobres, reis e plebeus, todos deixam o mundo envoltos no mesmo tecido simples, sem levar bens materiais.
A cremação é proibida
O próximo passo é a Salat al-Janazah, a oração fúnebre. Diferente das orações diárias muçulmanas, esta não contém prostrações (sujud) ou genuflexões (ruku), sendo realizada inteiramente em pé. A comunidade se reúne, muitas vezes no pátio da mesquita ou no cemitério, para suplicar a Deus pelo perdão e misericórdia para a alma do falecido. É um dever comunitário (Fard Kifayah), o que significa que, se um grupo de muçulmanos realizar a oração, a obrigação é cumprida por toda a comunidade local.
O funeral em si é marcado pela simplicidade e pelo contato com a terra. A cremação é estritamente proibida no Islã, pois se considera que o corpo, criação de Deus, deve ser respeitado e devolvido à terra intacto. O corpo é colocado na cova deitado sobre o lado direito, com o rosto voltado na direção de Meca (Qibla). Na maioria das tradições, não se usa caixão, a menos que exigido pela lei local ou condições do solo; o corpo é depositado diretamente no solo ou em uma câmara cavada na lateral da cova, protegido por tábuas de madeira ou pedras, mas sempre em contato com a natureza.
Por fim, o período de luto e a etiqueta pós-funeral enfatizam a paciência (Sabr) e a aceitação da vontade divina. Embora o choro seja permitido e visto como natural, lamentos excessivos, gritos ou o rasgar das vestes são proibidos, pois sugerem inconformidade com o decreto de Deus. O luto oficial geralmente dura três dias, durante os quais a comunidade cozinha e cuida da família enlutada, permitindo que eles processem a perda sem se preocupar com tarefas mundanas. As sepulturas são mantidas simples, muitas vezes apenas com uma pedra de identificação, evitando a construção de grandes mausoléus ou monumentos.
