A transferência da corte portuguesa para o Brasil, iniciada em finais de novembro de 1807, não foi apenas uma manobra geopolítica para escapar às invasões francesas, mas uma verdadeira odisseia marcada pelo caos e pelo improviso. A saída de Lisboa foi realizada de forma tão apressada que a família real e a nobreza deixaram para trás uma vida de conforto para embarcar numa viagem incerta, transformando as naus em palácios flutuantes precários e superlotados.
Durante a travessia do Atlântico, as condições a bordo degradaram-se rapidamente, revelando o lado menos nobre da realeza em fuga. A comida, armazenada à pressa, não resistiu à longa viagem e à falta de acondicionamento adequado. A corte, habituada a banquetes, viu-se forçada a alimentar-se de provisões que, muitas vezes, estavam infestadas por insetos, uma realidade humilhante que não distinguia criados de reis.
Má qualidade da alimentação
Além da má qualidade da alimentação, a higiene a bordo tornou-se um problema crítico. A aglomeração de pessoas e a escassez de água potável criaram o ambiente propício para a propagação de doenças e pragas. O episódio mais notório e excêntrico desta viagem foi, sem dúvida, o surto de piolhos que atacou as embarcações.
Esta praga de piolhos foi tão severa que obrigou a medidas drásticas e pouco estéticas. Muitas das damas da corte, e até membros da família real, viram-se forçadas a rapar o cabelo para controlar a infestação. Para disfarçar a calvície forçada, improvisaram-se turbantes e outros adereços de cabeça, criando involuntariamente uma “moda” que desembarcaria no Rio de Janeiro juntamente com a comitiva.
A viagem foi ainda pontuada pelo terror das tempestades. Os navios, pesados e a abarrotar de bens e pessoas, foram sacudidos por ventos fortes e marés violentas, espalhando o pânico entre os passageiros que, entre enjoos e orações, temiam nunca chegar ao destino. O medo do naufrágio conviveu diariamente com a miséria das condições sanitárias.
Quando finalmente avistaram a costa brasileira, em janeiro do ano seguinte, a corte enfrentou um novo choque, desta vez climático. A partida tinha ocorrido no rigoroso inverno europeu, com roupas pesadas de veludo e lã, adequadas ao frio de Lisboa. A chegada, porém, deu-se em pleno verão do hemisfério sul, sob um calor tropical impiedoso.
O desembarque da Família Real Portuguesa
O desembarque no Rio de Janeiro foi, portanto, uma cena de contrastes quase cômicos se não fossem trágicos. A nobreza europeia, exausta, malnutrida e a recuperar da praga de piolhos, pisou terra firme a suar em bica sob as suas vestes grossas e inadequadas, tentando manter a pompa e a circunstância num ambiente que lhes era total e exoticamente estranho.
Apesar das excentricidades e provações — da comida estragada, aos piolhos e ao choque térmico —, a família real conseguiu estabelecer-se. A corte permaneceria no Brasil até 1821, transformando a colônia na sede do império, num episódio histórico onde a glória da monarquia teve de conviver, lado a lado, com a mais crua das realidades humanas.
