O cenário literário brasileiro presencia, neste mês de dezembro de 2025, um movimento audacioso e inesperado por parte do escritor baiano Mailson Ramos. Conhecido por sua prosa enraizada na cultura sertaneja e no cangaço, o autor deixa temporariamente a aridez do sertão para adentrar os corredores marmorizados e os segredos milenares da Santa Sé com o lançamento de seu primeiro thriller, Leão XIV – A eleição do cardeal Ravasi. A obra marca uma guinada significativa na carreira do escritor, que troca os coronéis e beatos do interior da Bahia pelos cardeais e diplomatas de Roma.
A narrativa se desenrola em um futuro próximo e começa com o momento de maior tensão para a Igreja Católica: a Sede Vacante. Com a morte do Papa Gregório XVII, o mundo volta seus olhos para o Vaticano, onde se inicia o complexo xadrez político para a escolha do novo Pontífice. Ramos constrói um ambiente de suspense claustrofóbico, onde o silêncio dos corredores da Santa Sé é preenchido por conspirações, alianças frágeis e a luta velada pelo poder espiritual e temporal da instituição mais antiga do Ocidente.
Os protagonistas da obra
No centro da trama está a figura de Giuseppe Ravasi, o Patriarca de Veneza. Aos 49 anos, Ravasi desponta não apenas como um papabile, mas como uma figura de renovação necessária. O autor descreve o cardeal veneziano com uma profundidade psicológica que remete aos grandes personagens de seus dramas sertanejos: um homem dividido entre o peso da tradição e a urgência de respostas para um mundo em rápida transformação. Ravasi carrega consigo a visão de uma Igreja que precisa dialogar com o século XXI sem perder sua essência sagrada.
O conflito central da obra se estabelece na oposição ferrenha enfrentada pelo protagonista. Do outro lado do tabuleiro está o cardeal Peter Cole, uma figura rígida que personifica a ala ultraconservadora e a resistência a qualquer mudança que ameace o status quo. Enquanto Ravasi conta com a astúcia política do Camerlengo Gianbattista Pozzo — seu grande eleitor e aliado fundamental na disputa —, é Cole quem se ergue como um antagonista formidável, cujas manobras nos bastidores do conclave testam a fibra moral e a vocação de Ravasi a todo instante.

A dinâmica entre esses personagens revela o profundo trabalho de pesquisa de Ramos, que detalha com precisão os ritos litúrgicos, desde as vestes até as fórmulas em latim, criando uma verossimilhança que transporta o leitor para dentro da Capela Sistina. A disputa não é apenas por um cargo, mas pela alma da Igreja, simbolizada por um documento crucial: a encíclica Renovatio Ecclesiae.
Leão XIV e o Concílio de Veneza
O Concílio de Veneza é retratado como o marco decisivo do pontificado de Leão XIV, convocado com o propósito explícito de construir uma ponte entre a Igreja e a sociedade moderna. Rompendo com o centralismo romano, o Papa escolhe a Basílica de São Marcos para sediar o evento ecumênico, acompanhando pessoalmente as reformas no local para garantir que a estrutura acolhesse adequadamente os padres conciliares. A iniciativa, gestada após o Sínodo de Roma e fundamentada na encíclica Renovatio Ecclesiae, materializa a visão de Ravasi de uma Igreja menos burocrática e mais próxima de suas bases, utilizando sua antiga diocese como o berço dessa renovação.
A liturgia e os gestos do Concílio carregam um profundo simbolismo de humildade e ecumenismo. Leão XIV apresenta-se na procissão de entrada vestindo uma sotaina dourada e um pálio paleocristão, adotando o título de Episcopus Romanus (Bispo de Roma) para evitar tensões hierárquicas e falar em comunhão com todas as igrejas. Contudo, a audácia reformista cobra seu preço: o evento aprofunda o cisma com a ala conservadora, levando opositores a declararem que não suportam “trabalhar para o fim da Igreja”, evidenciando que o Concílio de Veneza é, simultaneamente, um ato de esperança para uns e o cenário de uma ruptura institucional para outros.
Do sertão ao Vaticano
Para os leitores habituados às obras anteriores de Mailson Ramos, como O Amor de um Cangaceiro ou O Sertão dos Coronéis, a mudança de cenário pode causar estranheza inicial, mas a assinatura do autor permanece inconfundível. Nascido em Conceição do Coité, na região sisaleira da Bahia, Ramos traz para o thriller vaticano a mesma sensibilidade humana e o olhar crítico sobre as estruturas de poder que consagraram sua literatura regionalista. A universalidade de seus temas prova que as paixões humanas são as mesmas, seja sob o sol escaldante da caatinga ou sob os afrescos de Michelangelo.
Leão XIV – A eleição do cardeal Ravasi chega às livrarias e plataformas digitais consolidando Mailson Ramos como um autor versátil, capaz de transitar entre gêneros distintos com maestria. O livro não é apenas um thriller sobre a escolha de um papa fictício, mas uma reflexão sobre liderança, ética e o futuro da fé. Com este lançamento, o escritor baiano reafirma que a boa literatura não tem fronteiras geográficas, convidando seu público a uma peregrinação literária que promete ser, no mínimo, reveladora.
