No início do século XVI, Argel era uma cidade-estado próspera, porém politicamente frágil, governada pelo emir Salim Toumi. É neste cenário histórico que se desenrola a vida de Zaphira, uma figura central na resistência argelina. A cidade vivia sob a constante ameaça do Império Espanhol, que, através da fortaleza Peñón de Argel, controlava o comércio local. Pressionado, Salim Toumi buscou auxílio nos famosos corsários irmãos Barbarossa, Aruj e Khayr al-Din, uma decisão que selaria o destino de sua esposa, a Princesa Zaphira.
A traição de Barbarossa e o fim de Salim Toumi
A chegada de Aruj Barbarossa em 1516 mudou drasticamente o destino da região. Recebido inicialmente como libertador, Aruj revelou ambições de estabelecer seu próprio sultanato. A tensão entre o refinado Salim Toumi e o guerreiro corsário culminou em uma traição sangrenta: Aruj ordenou o estrangulamento de Salim em seu próprio banho. Com o fim do domínio Thaaliba, o cenário estava montado para a ascensão da lenda de Zaphira.
Em meio ao caos, a figura de Zaphira emerge com força extraordinária. Esposa do rei assassinado, ela é descrita não apenas como uma mulher de beleza rara, mas de inteligência política e coragem inabaláveis. Enquanto a corte se submetia ao novo tirano, Zaphira permaneceu no palácio para proteger seu filho e o legado do marido. A morte de Salim foi um golpe na soberania do povo, transformando a princesa no último símbolo de resistência local contra o usurpador.
O cerco a Zaphira
Para Aruj Barbarossa, a conquista militar não bastava; ele precisava de legitimidade. A solução seria casar-se com Zaphira, a viúva do rei, unindo sua força militar à linhagem nobre local. O corsário propôs casamento à princesa utilizando sedução e ameaças veladas, crente de que uma mulher em sua posição não teria escolha senão aceitar a proteção do novo sultão.
Contudo, Zaphira recusou-se a ser um peão político. A história conta que ela respondeu às investidas do assassino de seu marido com desprezo, preservando sua honra. Ela tentou mobilizar tribos leais e instigar uma revolta interna. A resistência de Zaphira tornou-se um obstáculo psicológico para Barbarossa, que se via incapaz de dobrar a vontade daquela rainha.
O sacrifício da última rainha
Com o cerco emocional se fechando e percebendo que Aruj poderia usar força bruta ou ferir seu filho, Zaphira tomou uma decisão trágica. Compreendendo que não havia saída digna sob o teto do usurpador, ela optou pelo sacrifício supremo. A narrativa mais comum afirma que Zaphira cometeu suicídio — bebendo veneno ou usando um punhal — privando Aruj do troféu político que ele tanto desejava.
A morte de Zaphira solidificou sua imagem como mártir e heroína na memória argelina. Embora historiadores debatam a veracidade de alguns detalhes de sua vida — devido à escassez de fontes escritas da época —, a tradição oral manteve o nome de Zaphira vivo. Ela representa a alma indomável de Argel, uma cidade que, assim como sua rainha, resistiu a inúmeras invasões mantendo sua identidade.
Essa poderosa narrativa foi imortalizada nas telas com o filme de 2022, “A Última Rainha” (La Dernière Reine). Dirigido por Damien Ounouri e Adila Bendimerad (que interpreta a própria Zaphira), o longa é a primeira grande produção a focar nessa figura histórica. A obra mistura drama de época e ação para questionar a invisibilidade das mulheres na história oficial, retratando Zaphira não como vítima, mas como uma estrategista feroz que lutou até o fim por seu povo.
