Durante a Idade Média e o Renascimento, a Europa viveu uma fase curiosa em que as múmias egípcias eram importadas e consumidas como medicamento. Esse uso bizarro fazia parte da tradição da chamada “farmácia de cadáveres”, em que restos humanos eram vistos como fonte de cura. Os europeus acreditavam que a carne e o pó de múmia tinham propriedades capazes de combater doenças graves, como epilepsia, úlceras e dores crônicas.
A prática surgiu a partir de uma confusão histórica. Textos árabes e latinos mencionavam o “múmia”, uma substância betuminosa usada no Egito antigo para embalsamar corpos. Ao longo dos séculos, tradutores europeus confundiram o termo e passaram a acreditar que a própria carne ressecada das múmias continha esse poder medicinal. Assim, corpos mumificados começaram a ser comercializados em larga escala no continente.
Múmias como remédio
No século XII, o pó de múmia já era vendido em boticas, sendo considerado um remédio de prestígio. Nobres, clérigos e até reis recorriam a esse estranho medicamento. Para o consumo, as múmias eram trituradas e transformadas em pó, misturadas a vinho ou água. Em outros casos, pedaços eram dissolvidos em unguentos aplicados sobre feridas ou misturados a xaropes.
A crença era reforçada por médicos e alquimistas da época, que viam na decomposição um poder vital. A ideia era de que o corpo preservado do Egito antigo concentrava uma força capaz de regenerar os vivos. O comércio era tão lucrativo que surgiram falsificações: cadáveres recentes eram tratados com resinas e vendidos como “autênticas múmias egípcias”.
Durante os séculos XVI e XVII, o consumo de múmias atingiu seu auge. Farmacêuticos europeus estocavam grandes quantidades, e artistas renomados como o pintor francês Michel de Montaigne e o escritor Guy de la Fontaine registraram seu espanto diante desse hábito. Até mesmo a realeza, como Francisco I da França, é citada como adepto da ingestão de pó de múmia para fortalecer a saúde.
Compercio predatório
A partir do Iluminismo, essa prática começou a ser questionada. Médicos mais críticos passaram a ver o hábito como superstição sem base científica. Além disso, o comércio predatório destruiu incontáveis túmulos egípcios, provocando indignação entre estudiosos e viajantes. Aos poucos, o uso medicinal de múmias foi sendo abandonado, dando lugar a novos remédios e métodos mais racionais.
Hoje, o episódio é visto como um exemplo extremo da forma como a Europa medieval e renascentista lidava com o desconhecido. A busca por cura, somada ao fascínio pelo Egito antigo, resultou em um comércio macabro que atravessou séculos. O consumo de múmias lembra que a história da medicina é também feita de equívocos, crenças e práticas que, com o tempo, revelaram-se mais superstição do que ciência.
