A Independência do Brasil não foi apenas um rompimento formal com Portugal, mas também um processo permeado por tensões familiares. Dom João VI, que havia retornado a Lisboa em 1821, observava à distância os movimentos de seu filho, Dom Pedro, que ganhava cada vez mais apoio das elites locais. Embora pragmático, o rei entendia que a separação poderia ser inevitável, mas buscava preservar a monarquia e manter laços de obediência entre as duas coroas.
Carlota Joaquina, por outro lado, tinha uma visão mais radical. Conhecida por seu temperamento forte, nunca aceitou a transferência da corte para o Brasil e considerava a colônia um território de menor prestígio. Para ela, o rompimento representava uma afronta direta à autoridade da monarquia portuguesa. Desprezava o Brasil e não escondia sua oposição às decisões de Dom Pedro.
O olhar de Dom João VI
Dom João VI, apesar da distância, sabia que seu filho estava diante de uma situação política complexa. Se de um lado havia a pressão das Cortes de Lisboa, que exigiam o retorno imediato de Dom Pedro, de outro, a aristocracia brasileira insistia para ele permanecer. O famoso “Fico”, de 1822, foi acompanhado em Portugal com apreensão. O rei, em vez de partir para o confronto direto, preferiu manter a prudência: não queria perder a colônia, mas tampouco desejava abrir caminho para um conflito sangrento.
Sua postura conciliadora refletia uma tentativa de salvar a dinastia. Tanto que, mesmo após a proclamação da Independência, Dom João VI não rompeu totalmente com o Brasil. Reconheceu a autonomia em 1825, transformando-se em um dos raros monarcas europeus que aceitaram, de forma diplomática, a perda de uma colônia estratégica sem grandes guerras.
A oposição de Carlota Joaquina
Carlota Joaquina, em contrapartida, via em Dom Pedro um traidor. Para ela, a atitude do filho significava não apenas a fragmentação do império português, mas também uma ofensa pessoal. Seus relatos e gestos políticos na corte lisboeta deixaram claro que rejeitava qualquer ideia de independência. Em cartas e intrigas, buscava fortalecer a ala absolutista em Portugal, que via com bons olhos um endurecimento contra os “rebeldes” brasileiros.
Essa diferença de postura entre o casal real deixou marcas profundas. Enquanto Dom João VI apostava no equilíbrio e aceitava negociar, Carlota Joaquina se isolava em seu radicalismo, alimentando a imagem de uma rainha inflexível.
A relação com Dom Pedro tornou-se ainda mais tensa. O jovem imperador carregava consigo não apenas a tarefa de liderar o novo Brasil, mas também o peso de desagradar sua mãe e desobedecer, ainda que indiretamente, às ordens das Cortes portuguesas. Entre a moderação do pai e o desprezo da mãe, Dom Pedro consolidou sua própria identidade política.
