A transferência da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, foi um dos episódios mais marcantes da história luso-brasileira. Fugindo das tropas de Napoleão, Dom João VI, então príncipe regente, trouxe consigo toda a corte e instalou-se no Rio de Janeiro, transformando a cidade na nova capital do império português. A chegada causou forte impacto: para os brasileiros, representava prestígio e elevação do status da colônia; para os nobres portugueses, foi uma experiência de adaptação difícil, em meio a um cenário que julgavam atrasado e rústico.
Muitos membros da família real viam o Brasil com desconfiança ou até com desprezo. Comparado às grandes cidades europeias, o Rio de Janeiro parecia pouco desenvolvido, com ruas estreitas e hábitos considerados pouco refinados. Ainda assim, o país já era a mais importante possessão portuguesa, superando Angola, Goa e Macau em riqueza e influência política. O Brasil sustentava a metrópole, mesmo que fosse alvo de críticas e preconceitos aristocráticos.
A visão negativa de Carlota Joaquina
Entre os que mais desprezavam a nova morada estava Carlota Joaquina. A rainha nunca se adaptou à vida nos trópicos e deixou registradas opiniões negativas sobre a terra e seu povo. Considerava o Brasil insalubre e pouco civilizado, sentindo-se exilada em um espaço que não condizia com a dignidade de uma corte europeia. A famosa anedota de que teria limpado as sapatilhas ao embarcar de volta para Lisboa, para não levar “um grão de terra brasileira”, ainda que provavelmente lendária, simboliza bem essa visão hostil.
Enquanto isso, a presença da corte provocava transformações profundas. Foram criadas instituições culturais e administrativas, como a Imprensa Régia, o Jardim Botânico e a Biblioteca Real. O Brasil deixou de ser apenas uma colônia agrícola e tornou-se sede de um império europeu, algo inédito na história colonial. Essa modernização, porém, ocorreu em meio a tensões internas, que se refletiriam na geração seguinte, sobretudo na rivalidade entre Dom Pedro e Dom Miguel.
Os dois filhos de Dom João VI representaram projetos políticos distintos. Pedro, no Brasil, adotava posições liberais e constitucionais, que culminaram na independência em 1822 e em seu título de imperador. Miguel, em Portugal, tornou-se defensor do absolutismo e buscou restaurar o poder real sem limitações constitucionais. Essa oposição fraterna explodiu em guerra civil após a morte do pai, refletindo não só diferenças de caráter, mas também a divisão política do próprio império.
O tratamento dado pelos pais aos filhos também reforçou essas divergências. Dom João VI manteve postura equilibrada e conciliadora, mas Carlota Joaquina nunca escondeu sua predileção por Miguel, alinhado a suas convicções absolutistas. Já Pedro, visto como rebelde e “abrasileirado”, era alvo de antipatia materna, o que aumentava a tensão familiar e política. Essa dinâmica entre mãe, pai e filhos marcou profundamente o destino da monarquia portuguesa.
O retorno da família real portuguesa
A volta da família real a Lisboa, em 1821, foi igualmente carregada de contradições. Dom João VI partiu contrariado, pressionado pelas Cortes do Porto, e deixou no Brasil o filho Pedro, que em breve conduziria a independência. Portugal, por sua vez, sofrera com a ausência do monarca, perdendo prestígio e centralidade no império. Assim, a vinda, a permanência e a partida da corte portuguesa do Brasil não apenas mudaram o destino da colônia, mas também precipitaram o rompimento entre os dois reinos e abriram caminho para uma nova era na história luso-brasileira.
