Quando a família real portuguesa transferiu-se para o Brasil em 1808, em fuga das tropas napoleônicas, a rainha Carlota Joaquina, esposa de Dom João VI, começou a nutrir ambições próprias. Espanhola de nascimento, filha do rei Carlos IV de Espanha, ela via a crise da monarquia espanhola – tomada por Napoleão e com o rei deposto – como uma oportunidade de se colocar em posição de poder. Sua ideia era assumir o controle sobre as colônias espanholas na América do Sul, aproveitando o vazio de autoridade legítima na Espanha.
Esse projeto ficou conhecido como “Carlotismo”. Carlota Joaquina argumentava que, como filha da dinastia Bourbon, tinha direito de herdar e representar a coroa espanhola enquanto seu pai e seu irmão estavam sob o domínio francês. O plano, portanto, consistia em estender sua autoridade sobre os territórios do Rio da Prata, o Chile e outras possessões hispano-americanas, estabelecendo-se como regente legítima em nome da família real de Bourbon.
O plano de Carlota Joaquina
O contexto ajudava: muitas regiões da América Hispânica estavam em revolta contra os franceses e desconfiavam dos governos locais nomeados em nome de Napoleão. Carlota via ali a chance de ser reconhecida como soberana, unindo-se aos movimentos locais em defesa da “legitimidade”. Porém, para isso, dependia do apoio político e militar de Portugal e da Inglaterra, que tinha grande influência sobre o Atlântico Sul naquele período.
Entretanto, os ingleses não apoiaram suas pretensões. Londres temia que a ascensão de Carlota Joaquina sobre territórios hispânicos desestabilizasse a região e prejudicasse seus próprios interesses comerciais. A Inglaterra, que controlava o comércio no Rio da Prata, preferia uma independência gradual das colônias, sob sua influência econômica, a ver uma união luso-espanhola sob Carlota. Sem o respaldo britânico, o plano já perdia força.
Dom João VI não demonstrou interesse
Além disso, o próprio Dom João VI não demonstrou entusiasmo pela ideia. Prudente e avesso a aventuras arriscadas, o monarca temia que o envolvimento em uma conquista contra a América Hispânica pudesse trazer conflitos diretos com a Espanha e até mesmo com a Inglaterra. Para ele, era mais seguro consolidar a presença portuguesa no Brasil e manter boas relações com os britânicos, em vez de embarcar nos projetos pessoais da esposa.
Carlota Joaquina, conhecida por seu temperamento forte e ambição desmedida, insistiu durante algum tempo, mas acabou sendo dissuadida pela falta de aliados políticos. O Conselho de Estado de Portugal e os diplomatas britânicos foram firmes em bloquear suas iniciativas. Isolada e sem apoio real, a rainha teve de abandonar o projeto de se tornar soberana da América Hispânica.
No fim, o Carlotismo revelou mais sobre a personalidade e as ambições de Carlota Joaquina do que sobre qualquer possibilidade concreta de conquista. Embora o plano tenha gerado discussões entre elites e revolucionários na região do Rio da Prata, acabou sendo apenas uma ideia frustrada. Para Dom João VI, foi um alívio: a rejeição do projeto evitou que Portugal se envolvesse em uma guerra incerta e manteve a aliança estratégica com a Inglaterra intacta.
