Quando um faraó morria no Egito antigo, sua morte não era vista como um fim absoluto, mas como uma passagem para a eternidade. O governante era considerado um ser divino, filho de Rá ou encarnação de Hórus, e por isso sua preservação e ritual de passagem eram tratados com extremo cuidado. Todo o processo tinha como objetivo garantir que sua alma alcançasse a vida eterna junto aos deuses e continuasse a proteger o Egito.
O primeiro passo era o anúncio oficial da morte, seguido de um período de luto nacional. A corte, sacerdotes e súditos vestiam roupas especiais e participavam de rituais de purificação. Durante esse tempo, o corpo do faraó era levado para o processo de mumificação, que podia durar cerca de 70 dias. Esse número não era aleatório: correspondia a um ciclo sagrado ligado às estrelas e ao deus Osíris, senhor da vida após a morte.
O processo de embalsamamento
O processo de embalsamamento era complexo. Primeiro, retiravam-se os órgãos internos – coração, estômago, intestinos e pulmões – que eram conservados em vasos canópicos, cada um protegido por um dos filhos de Hórus. O cérebro, por outro lado, era retirado por via nasal com instrumentos especiais, pois era considerado de pouca utilidade para a vida após a morte. O corpo era então desidratado com natrão, uma mistura natural de sais, e posteriormente envolto em inúmeras faixas de linho embebidas em resinas aromáticas.
Durante a mumificação, sacerdotes realizavam preces e encantamentos do Livro dos Mortos, assegurando que o espírito do faraó tivesse proteção contra forças malignas. Entre as camadas de linho, colocavam-se amuletos mágicos, sendo o mais famoso o escaravelho do coração, que garantiria que o faraó tivesse um julgamento justo diante de Osíris. A cerimônia mais importante era o “rito da abertura da boca”, em que se acreditava que o faraó recuperava simbolicamente os sentidos para a vida eterna.
Procissão funerária com o corpo do faraó
Após a preparação do corpo, vinha a procissão funerária. A múmia era colocada em sarcófagos ricamente ornamentados, muitas vezes dentro de vários caixões encaixados uns nos outros. O caixão final, frequentemente de ouro, representava a face idealizada do faraó. O cortejo incluía sacerdotes, familiares e funcionários do Estado, que conduziam o corpo até a necrópole, acompanhados de cânticos e oferendas.
O local do sepultamento variava conforme a época. Durante o Império Antigo, os faraós eram enterrados em pirâmides, como Quéops em Gizé. Já no Império Novo, os sepultamentos aconteciam no Vale dos Reis, em tumbas escavadas nas rochas. Essas tumbas eram decoradas com pinturas e textos sagrados descrevendo a jornada do faraó pelo submundo. Entre os objetos colocados no túmulo estavam alimentos, móveis, armas, estátuas, joias e até barcos em miniatura, tudo para atender o governante na outra vida.
No Egito, gatos também eram mumificados
Um detalhe curioso é que os egípcios acreditavam que o faraó precisaria de servos no além. Por isso, eram enterradas figuras chamadas ushebtis, pequenas estátuas que tinham a função de trabalhar no lugar do faraó caso os deuses pedissem. Outra curiosidade é que, em alguns períodos, certos animais sagrados, como gatos ou falcões, também eram mumificados e colocados no túmulo como guardiões espirituais.
Por fim, após o sepultamento, realizava-se um banquete em homenagem ao faraó, marcando o fim da fase de luto e o início da vida eterna do governante. O sucessor assumia o trono e dava continuidade à linhagem divina. Graças a esses rituais complexos, o Egito deixou para a posteridade um dos mais sofisticados costumes funerários da história, que até hoje fascina arqueólogos e historiadores.
