O casamento entre Dom Pedro I do Brasil e Dona Maria Leopoldina da Áustria, realizado em 1817, foi inicialmente visto como uma aliança política sólida entre a recém-independente Casa de Bragança e a poderosa Casa de Habsburgo. A arquiduquesa vienense chegou ao Brasil com esperanças de estabilidade e de contribuir com a construção de uma monarquia duradoura na América. De fato, nos primeiros anos, Leopoldina mostrou-se uma consorte dedicada, interessada nos assuntos do Estado e, segundo Carlos H. Oberacker Jr., em Dona Leopoldina: Sua vida e sua época, desempenhou papel crucial na sustentação da independência do Brasil em 1822.
As traições de Dom Pedro I
No entanto, a vida conjugal foi marcada por tensões profundas. Dom Pedro I, de temperamento explosivo e conhecido por sua vida amorosa intensa, rapidamente revelou infidelidades que humilharam a imperatriz. O romance mais notório foi com Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, iniciado em 1822 e amplamente documentado por correspondências preservadas. Lilia Moritz Schwarcz, em As Barbas do Imperador, afirma que Pedro I não se preocupava em ocultar o relacionamento, obrigando Leopoldina a conviver publicamente com a amante, situação que a fragilizava politicamente e emocionalmente.

As traições constantes não se restringiram à Marquesa de Santos. Pesquisadores como Roderick J. Barman, em Brazil: The Forging of a Nation, 1798-1852, apontam que Pedro tinha outras relações passageiras, reforçando a fama de impulsivo e volúvel. Para Leopoldina, formada dentro de uma tradição católica e conservadora dos Habsburgo, esse comportamento não apenas feria sua honra, mas comprometia a imagem da monarquia diante da corte e da sociedade carioca.
Agressões físicas à imperatriz
As agressões físicas também são relatadas em fontes históricas, embora haja divergências quanto à intensidade. O historiador Octávio Tarquínio de Sousa, em sua biografia de Dom Pedro I, menciona episódios de violência doméstica, especialmente nos últimos anos da vida de Leopoldina, quando o casamento já estava em crise irreversível. Há registros de que, em novembro de 1826, pouco antes da morte da imperatriz, ela teria sido vítima de maus-tratos verbais e físicos por parte do marido, possivelmente em meio a discussões sobre a relação com Domitila.
O episódio mais trágico foi o falecimento de Leopoldina em 11 de dezembro de 1826, grávida de seu nono filho. A versão tradicional fala em complicações obstétricas após um aborto espontâneo. Contudo, alguns relatos coevos e estudos posteriores, como os analisados por Oberacker Jr., levantam a hipótese de que as agressões físicas de Pedro possam ter contribuído para a deterioração de sua saúde. Schwarcz ressalta, porém, que a documentação é fragmentária, e a ligação direta entre violência e morte permanece objeto de debate historiográfico.
Apesar da dificuldade de comprovar todos os detalhes, o consenso entre historiadores é que Leopoldina sofreu enormemente com o comportamento do marido. Sua figura, sempre associada à dignidade e ao sacrifício em prol do Brasil, contrasta com a imagem de Pedro, muitas vezes retratado como apaixonado, mas impulsivo e brutal. Essa oposição foi reforçada após sua morte, quando Leopoldina passou a ser cultuada como mártir da pátria, enquanto a Marquesa de Santos representava o lado escandaloso do imperador.
Casamento como aliança política
Assim, o casamento entre Dom Pedro I e Dona Leopoldina permanece como um dos episódios mais dramáticos da história do Brasil monárquico. De aliança política promissora, transformou-se em uma união marcada por infidelidades, humilhações públicas e relatos de agressões. A historiografia recente, ao confrontar documentos oficiais, cartas pessoais e memórias de contemporâneos, busca separar mito e realidade, mas a imagem de Leopoldina como vítima de um relacionamento turbulento e doloroso segue viva como parte essencial da memória nacional.
