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Pero Sardinha: o bispo devorado pelos caetés

Pero Sardinha: o bispo devorado por indígenas

Pero Sardinha foi o primeiro bispo do Brasil, nomeado em 1551 para a recém-criada Diocese de São Salvador da Bahia. Nascido em Portugal, provavelmente por volta de 1496, ele já tinha uma sólida formação acadêmica e experiência no clero antes de atravessar o Atlântico. Sua nomeação fazia parte dos esforços da Coroa portuguesa para organizar a vida religiosa na colônia e reforçar a presença da Igreja Católica, numa época em que o território ainda era instável, pouco povoado e com constantes conflitos com povos indígenas.

Como bispo, Sardinha se dedicou à implantação de estruturas eclesiásticas no Brasil, embora enfrentasse sérias dificuldades logísticas e políticas. Era um homem de caráter rígido e disciplinador, o que o levou a entrar em atrito com autoridades coloniais e até com alguns missionários, como os padres jesuítas. Seu temperamento firme e exigente o tornou uma figura respeitada por uns e temida por outros, mas também gerou oposição dentro da própria Igreja.

O naufrágio

Em 1556, após desentendimentos e questões administrativas, Sardinha decidiu retornar a Portugal. Ele embarcou em um navio que, ao se aproximar da costa do atual estado de Alagoas, naufragou nas proximidades da foz do rio Coruripe. Os sobreviventes, incluindo o bispo, conseguiram chegar à praia, mas logo foram cercados por um grupo de indígenas caetés, conhecidos por praticar o canibalismo ritual.

Os caetés, que mantinham uma relação conflituosa com os colonizadores portugueses, viam o ato de devorar inimigos como forma de absorver sua força e coragem. Para eles, o naufrágio foi uma oportunidade de capturar estrangeiros sem correr risco de confronto direto com tropas portuguesas. Pero Sardinha e os demais sobreviventes foram feitos prisioneiros e levados para o interior.

Segundo relatos de cronistas da época, como Pero de Magalhães Gandavo e Frei Vicente do Salvador, o bispo e os náufragos permaneceram alguns dias sob a guarda dos caetés antes de serem mortos. Em seguida, seus corpos foram consumidos em um ritual coletivo, no qual partes eram assadas ou cozidas, prática comum em guerras tribais entre alguns povos indígenas. No caso do bispo, a morte e o consumo tiveram um caráter simbólico, já que ele representava a autoridade máxima da Igreja na colônia.

A repercussão da morte de Pero Sardinha

A morte de Pero Sardinha causou enorme impacto tanto na colônia quanto em Portugal. Foi vista como um episódio bárbaro e serviu como justificativa para que a Coroa intensificasse a repressão contra os caetés e outras tribos consideradas hostis. O caso também ficou marcado no imaginário histórico brasileiro como um dos exemplos mais dramáticos do choque cultural e da violência que caracterizaram os primeiros contatos entre europeus e indígenas.

O trágico fim do primeiro bispo do Brasil é lembrado até hoje como um episódio emblemático do início da colonização. Mais do que uma simples narrativa de canibalismo, ele simboliza as tensões políticas, religiosas e culturais que moldaram o Brasil nascente. A morte de Sardinha tornou-se parte da construção da memória colonial, ora como relato heroico de martírio cristão, ora como sinal das duras realidades enfrentadas no encontro entre o Velho e o Novo Mundo.

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