A morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, ainda é envolta em um misto de comoção popular e detalhes pouco conhecidos, preservados em relatos de pessoas próximas e em pesquisas como as de Lira Neto, na biografia Getúlio. Ao amanhecer daquele dia, o Brasil foi sacudido pela notícia de que o presidente havia se suicidado com um tiro no peito, episódio que selou uma crise política intensa. Embora a versão oficial tenha sido amplamente aceita, há bastidores que revelam a meticulosidade e a frieza com que Vargas preparou seus últimos momentos, numa espécie de despedida calculada.
Um dos detalhes menos comentados é que Vargas, dias antes, teria consultado um médico de confiança sobre a localização exata do coração. A pergunta, aparentemente trivial, era na verdade parte de sua decisão final: queria saber a posição precisa para não errar o disparo. Ele teria alegado que era mera curiosidade, mas a insistência no tema deixou o profissional desconfortável. Esse detalhe, registrado por pessoas próximas e por biógrafos, mostra que sua morte não foi um ato impulsivo, mas fruto de premeditação.
A última madrugada de Vargas
No dia 23 de agosto, à noite, Getúlio Vargas recebeu visitas, conversou com familiares e assessores, e em momento algum deu sinais de nervosismo extremo. Segundo testemunhos, manteve uma postura calma, mas evitou longas conversas em privado, como se já tivesse decidido o rumo dos acontecimentos. Passou a madrugada em claro, revisando documentos e deixando instruções, incluindo a famosa Carta Testamento, que já estava praticamente pronta e cuja redação final teria sido feita horas antes do tiro.
O tiro foi dado com um revólver Colt calibre .32, encostado no peito, na altura indicada pelo médico dias antes. A escolha por atirar no coração e não na cabeça tinha um motivo simbólico e prático: evitar desfiguração do rosto, permitindo um velório aberto que reforçasse a imagem de um líder “entregando a vida pelo povo”. Poucos minutos depois, o corpo foi encontrado por familiares e assessores, e a notícia rapidamente se espalhou pelo Catete, provocando pânico e correria.
Os legistas que examinaram o corpo confirmaram que o disparo foi à queima-roupa, com a bala transfixando o coração. O relatório apontou o trajeto do projétil e a ausência de sinais de luta ou intervenção externa, reforçando a versão de suicídio. No entanto, até hoje existem versões alternativas, embora enfraquecidas por evidências técnicas, que questionam se Vargas teria sido de fato o autor do disparo. O exame balístico e a autópsia, feitos de forma apressada, contribuíram para alimentar teorias conspiratórias.
Outro aspecto pouco discutido é a atmosfera dentro do Palácio do Catete nas horas seguintes. Enquanto do lado de fora a multidão começava a se aglomerar, chorando e gritando palavras de apoio, lá dentro assessores tentavam decidir como e quando divulgar a notícia. Alguns membros do governo acreditavam que era preciso segurar a informação para ganhar tempo político, mas familiares e ministros próximos exigiram transparência imediata.
A atmosfera a partir do sacrifício de Getúlio Vargas
A morte de Getúlio Vargas provocou um fenômeno popular espontâneo: trabalhadores, estudantes e pessoas comuns saíram às ruas em luto, transformando o velório e o cortejo em demonstrações de afeto e revolta contra seus adversários políticos. A carta-testamento, lida pela rádio, reforçou o tom de sacrifício pessoal, e muitos passaram a enxergar sua morte como um gesto heroico contra as elites e a imprensa que o atacavam.
Hoje, quase sete décadas depois, esses detalhes — a consulta sobre o coração, a escolha pelo tiro no peito, a pressa na autópsia e a reação imediata da população — ajudam a compreender que o ato de Vargas foi tanto um gesto político quanto pessoal. Longe de ser um impulso isolado, sua morte parece ter sido cuidadosamente planejada para criar um impacto duradouro, consolidando uma narrativa de mártir que ainda influencia a memória histórica do país.
Linha do tempo detalhada das últimas 48 horas de Vargas
22 de agosto de 1954 – Domingo
Vargas permanece no Palácio do Catete, em meio à crise provocada pelo atentado da rua Tonelero (contra Carlos Lacerda) e pela pressão militar para que renuncie.
Recebe aliados e ministros, incluindo Tancredo Neves, que tentam encontrar uma saída política.
A tensão é grande, mas Vargas mantém postura calma. Conversa com familiares e brinca com netos, evitando transmitir nervosismo.
Em um momento reservado, teria feito perguntas a um médico próximo sobre a posição exata do coração, alegando curiosidade.
23 de agosto de 1954 – Segunda-feira
Pela manhã, recebe mais ministros. O clima no Catete é de crescente isolamento: forças militares já articulam sua saída imediata.
Vargas participa de reuniões no gabinete, mas evita discursos inflamados; fala pouco e ouve mais.
À noite, janta com a família e recebe alguns amigos próximos. Não dá sinais claros do que pretende fazer.
Após a meia-noite, recolhe-se ao quarto. Passa horas lendo e escrevendo anotações, incluindo a redação final da Carta Testamento.
Madrugada de 24 de agosto de 1954 – Terça-feira
Por volta das 2h, é visto acordado, com expressão séria. Um funcionário do Catete afirma ter ouvido passos pelo corredor, vindos de seu quarto.
Antes do amanhecer, escreve bilhetes e deixa instruções sobre assuntos pessoais e administrativos.
A Carta Testamento, guardada na gaveta, já está pronta para ser divulgada.
Vargas veste um pijama claro, e sobre a cama deixa objetos pessoais e o revólver Colt calibre .32, que usará.
5h30 – 24 de agosto
Ministros e assessores chegam ao Catete para uma reunião decisiva sobre sua renúncia.
O presidente, sem alarde, tranca-se no quarto.
Pouco depois, um disparo é ouvido.
Familiares e seguranças arrombam a porta e encontram Vargas caído sobre o pijama ensanguentado, com o revólver na mão.
6h – 24 de agosto
O médico da família confirma a morte: tiro no peito, à altura exata do coração, à queima-roupa.
Legistas chegam e confirmam que não havia sinais de luta, reforçando a versão de suicídio.
O corpo é rapidamente preparado para o velório, pois Vargas havia escolhido um tiro que não desfigurasse o rosto.
Manhã – 24 de agosto
Ministros e familiares discutem como divulgar a notícia. Alguns defendem adiar o anúncio para reorganizar o governo; outros, como Tancredo Neves, exigem transparência.
A carta-testamento é repassada à imprensa e lida no rádio, causando comoção nacional.
Tarde – 24 de agosto
Multidões começam a se reunir diante do Palácio do Catete. Trabalhadores choram, gritam palavras de ordem e atacam jornais opositores.
O corpo de Vargas é velado no próprio palácio, com caixão aberto.
25 de agosto
O corpo é levado para São Borja, no Rio Grande do Sul. O cortejo é acompanhado por milhares de pessoas pelas estradas e nas estações ferroviárias.
Vargas é enterrado como um mártir político, consolidando a imagem de que morreu “para entrar na História”.
