A representação do profeta Maomé, figura central do Islã, é evitada por grande parte dos muçulmanos devido a uma tradição religiosa que desencoraja imagens de seres humanos, especialmente de figuras sagradas. Essa prática busca evitar qualquer forma de idolatria — ou seja, o risco de que imagens passem a ser adoradas ou reverenciadas em lugar de Deus (Allah), o que contraria um dos princípios fundamentais do Islã: o estrito monoteísmo.
Essa restrição se baseia não no Alcorão diretamente, mas em hadiths (relatos e ensinamentos atribuídos ao profeta Maomé), que desestimulam a produção de imagens de pessoas e seres vivos. O temor é que tais representações possam levar à distorção do verdadeiro significado espiritual da mensagem islâmica. Por isso, ao longo dos séculos, a arte islâmica desenvolveu-se principalmente com padrões geométricos, caligrafias e arabescos, evitando retratos figurativos.
No entanto, isso não significa que nunca houve imagens de Maomé. Durante a Idade Média, principalmente em tradições persas, turcas e de outras culturas islâmicas, manuscritos ilustrados chegaram a retratar o profeta. Nessas representações antigas, o rosto de Maomé geralmente aparecia coberto por um véu ou, em muitos casos, era cercado por uma chama, simbolizando sua luz espiritual — o nūr muhammadī. Essas imagens, no entanto, eram produzidas em contextos privados e acadêmicos, não com fins devocionais.
O respeito à imagem de Maomé
Hoje, a maioria dos muçulmanos — especialmente das vertentes sunitas — considera ofensiva qualquer tentativa de representar Maomé, mesmo que a intenção não seja negativa. A reprodução pública de imagens, principalmente em contextos satíricos ou políticos, como ocorreu com charges em jornais europeus, causou protestos e tensões diplomáticas, por ser vista como uma afronta ao Islã e à figura do profeta.
Por outro lado, algumas minorias muçulmanas, como certos grupos xiitas ou sufitas, toleram ou produzem imagens simbólicas de Maomé, desde que com respeito e em contextos devocionais ou educacionais. Ainda assim, essas representações raramente mostram o rosto do profeta; ele continua velado ou estilizado, preservando o mistério e a reverência que cercam sua figura.
Portanto, a ausência do rosto de Maomé nas artes e nas mídias não é fruto de censura arbitrária, mas de um profundo respeito religioso e de uma teologia que prioriza a transcendência divina sobre qualquer imagem. Para milhões de muçulmanos, manter o profeta invisível é uma forma de afirmar que sua importância está em sua mensagem — e não em sua aparência física.
